09.07.2025
Quando os incêndios florestais ameaçam, as brigadas comunitárias chegam primeiro
“Essa é a profissão do futuro. Quando faltar comida e oxigênio, é que vão entender o valor do nosso trabalho”
Caroline Dantas, Brigada Guardiões da Cafuringa (DF)
A frase foi dita pela brigadista Caroline Dantas, no “Brigadas em Rede – Encontro de Fortalecimento e Articulação entre Brigadas Voluntárias e Comunitárias”, realizado em Brasília, entre os dias 1º e 3 de julho. Era apenas um comentário espontâneo, mas ficou ecoando entre as rodas de conversa e oficinas.
Porque é isso mesmo. Enquanto o mundo busca soluções tecnológicas para a crise climática, já existem pessoas colocando o corpo e a vida à frente do fogo. A maioria atua de forma voluntária, com poucos recursos e muito conhecimento construído no território, seja ele ancestral, comunitário ou fruto da convivência direta com os biomas, como no caso de Caroline Dantas, que vive em uma região de serra no Cerrado do Distrito Federal e atua na brigada Guardiões do Cafuringa.
O “Brigadas em Rede” é uma construção coletiva, fruto do encontro entre o Fundo Casa Socioambiental e tantas parceiras e parceiros que acreditam na força das comunidades para proteger seus territórios. Correalizado com a Rede Nacional de Brigadas Voluntárias (RNBV), ISPN, IPAM, BASE, Brigada Feminina Apinajé e o Programa COPAÍBAS, que é financiado pela Iniciativa Internacional da Noruega para Clima e Florestas (NICFI), por meio do Ministério das Relações Exteriores da Noruega, e gerido pelo FUNBIO. Este projeto se ergue com todo esse apoio de quem caminha junto.
Durante os três dias, representantes de mais de 120 brigadas de todas as regiões do Brasil estiveram reunidos, num encontro inédito em escala nacional. Esses brigadistas conhecem os territórios como ninguém. Sabem onde o vento muda de direção, por onde o fogo costuma avançar e qual o momento certo para realizar uma queima prescrita, prevenindo incêndios maiores.
O trabalho das brigadas começa bem antes do fogo. Os brigadistas limpam o chão da mata em pontos estratégicos, criando faixas sem vegetação para impedir que o fogo se espalhe, orientam as comunidades por meio da educação ambiental, monitoram sinais de risco. É um esforço de prevenção que muitas vezes passa despercebido, mas que pode evitar que um incêndio comece.
No combate, usam rádios, bombas costais, abafadores, sopradores, facões e, cada vez mais, drones e GPS. Mas, acima de tudo, atuam com sabedoria coletiva e confiança mútua. Porque brigadista que é brigadista sabe que o fogo não espera, e só o trabalho coletivo é capaz de enfrentá-lo.

Mulheres da brigada Guardiões da Cafuringa (DF) em campo. Foto: Lucas Duarte
E é por isso que o encontro não foi só sobre técnicas e equipamentos, mas também sobre reconhecimento. Porque, apesar de serem responsáveis por boa parte da contenção e prevenção dos incêndios, essas brigadas ainda enfrentam falta de financiamento, de EPIs adequados e de apoio contínuo, especialmente fora dos períodos de emergência.
A presença feminina teve papel central no encontro. Mulheres de diferentes brigadas mostraram que o combate ao fogo exige mais do que força: requer conhecimento, sensibilidade e organização. Juntas, reafirmaram que o protagonismo das mulheres é essencial na proteção dos territórios e no cuidado com a vida.
“Criamos a brigada feminina não só para proteger nossas comunidades, mas para cuidar da vida no nosso território inteiro”, disse Maria Aparecida Apinajé, liderança da Brigada Feminina Apinajé, formada por 52 mulheres indígenas no Tocantins. Para ela, ser brigadista é uma extensão do bem viver, “preservar as casas vivas da floresta, proteger as plantas de cura, manter viva a língua, a espiritualidade e a cultura”.

No painel “A importância das brigadas voluntárias e das mulheres nesse trabalho”, Maria Aparecida Apinajé, Maíz d’Assumpção e Caroline Dantas destacam o protagonismo feminino na proteção dos territórios. Foto: Camila Araújo (ISPN)
Outras mulheres, como Maíz d’Assumpção, diretora secretária da Rede Nacional de Brigadas Voluntárias (RNBV), lembraram o quanto esse trabalho precisa ser reconhecido como política pública de base, e não como improviso heróico. “Nossa categoria ainda é invisibilizada. Mas fazemos muito mais do que apagar incêndios. Fazemos prevenção, educação ambiental, construímos redes e formamos lideranças. A gente defende os territórios como quem defende a própria casa, porque é isso que é”.
É exatamente isso que essas mulheres fazem: seguram o abafador com uma mão e, com a outra, carregam filhos, histórias, sementes, protocolos, mapas e esperança. Por isso, enfrentam os incêndios quando necessário e manejam o fogo com responsabilidade, sempre com conhecimento, respeito ao território e compromisso com a vida.
Os desafios e aprendizados do Manejo Integrado do Fogo no Brasil
O fogo nem sempre é vilão. Para muita gente, ele é ferramenta, tradição, sobrevivência. A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF) nasce desse entendimento: não basta apagar as chamas, é preciso escutar quem convive com elas há gerações.
Imagine um agricultor no sertão ou um indígena na Amazônia. Para eles, o fogo serve para limpar áreas de plantio, renovar pastagens ou realizar rituais ancestrais. Mas, quando mal manejado, ou quando o clima e o desmatamento fogem do controle, ele se transforma em incêndio, destruição, emergência.
A PNMIF surge para propor um diálogo entre ciência e tradição. Em vez de proibir o fogo, a ideia é entender como usá-lo de forma estratégica e segura, aprendendo com quem sempre soube lidar com ele. É uma virada de chave: combater incêndios não é só apagar, mas planejar, respeitar e escutar. É aprender com a floresta e com quem nela mora.

Gabriel Chaskelmann apresenta a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), destacando que prevenir incêndios exige planejamento, escuta e reconhecimento das brigadas como profissionais. Foto: Camila Araújo (ISPN)
Para Gabriel Franco Chaskelmann, brigadista da Brigada de Alter e um dos que ajudaram a construir a PNMIF, o manejo é muito mais do que a chamada queima prescrita. “Queima prescrita é só uma das ferramentas do MIF. O manejo é muito mais amplo”, explica.
“Fazer MIF é olhar para tudo isso. Se a ação ignora esses fatores, não é MIF. Mesmo que use fogo. Tem gente chamando de MIF uma queima feita de qualquer jeito. Isso não é manejo. Isso é risco”, alerta Gabriel. Para ele, a prevenção de verdade exige continuidade e estrutura: “Prevenção precisa de presença no território, escuta da comunidade e estratégia”.
Um dos pontos fortes da política é o plano operativo, que organiza brigadistas, equipamentos, áreas de risco e capacidade de resposta. “Se alguém perguntar por que atuamos naquela área, mostramos o plano. Ele respalda nosso trabalho”, conta.
Gabriel também defende que brigadas cumprem um papel técnico, educativo e político nos territórios e precisam de reconhecimento e direitos, como o seguro de vida. “Ofereceram seguro de aventura. Eu recusei. Ser brigadista não é aventura, é um modo de viver e proteger nosso território, por isso queríamos seguro de vida. E conseguimos”.
Para ele, fortalecer o manejo passa também pela formação e partilha de conhecimento. “A cartilha da PNMIF foi criada para que todo mundo entenda o que é MIF. Só com conhecimento fortalecemos o que já fazemos na prática”.
A mensagem é simples: o fogo pode ser manejado com responsabilidade, desde que haja escuta, organização e respeito por quem sempre soube manejá-lo sem destruir a floresta. É sentar com as comunidades, entender seus saberes, ajudar a montar um plano: simples, direto, com mapa, calendário e estratégia. É envolver técnicos da secretaria, bombeiros e liderança local. É olhar para a floresta e perguntar: o que ela precisa?
Deputada Célia Xakriabá participa de encontro com brigadas e reforça importância do reconhecimento da profissão de brigadista florestal

A deputada Célia Xakriabá esteve no encontro das brigadas e defendeu o reconhecimento oficial da profissão de brigadista florestal. Foto: Camila Araújo (ISPN)
A deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) participou do encontro nacional de brigadas indígenas e comunitárias e apresentou o Projeto de Lei 3621/2024, que propõe a criação e regulamentação da profissão de Brigadista Florestal no Brasil. A proposta reconhece oficialmente o trabalho dos brigadistas, garante direitos e valoriza os conhecimentos tradicionais no manejo do fogo.
Durante a visita, a deputada se reuniu com brigadistas de diferentes regiões e biomas, ouviu relatos sobre os desafios enfrentados em campo e reforçou seu compromisso com a valorização e proteção desses profissionais. “Vocês não são voluntários. São profissionais. E o Estado precisa reconhecer isso”, afirmou.
O projeto prevê a formação especializada, assistência médica e psicológica, seguro de vida, e a inclusão das comunidades tradicionais nos processos de prevenção e combate aos incêndios florestais. Para os participantes, a presença da parlamentar foi um sinal importante de que as demandas das brigadas estão começando a ecoar em Brasília.
Fortalecer quem protege: a importância do apoio direto às brigadas e soluções comunitárias para o clima
A crise climática não é um problema do futuro, é uma emergência do presente. E se existe um investimento que tem retorno imediato e de longo prazo, é o apoio estruturante às brigadas comunitárias e voluntárias. Isso significa financiar não só as ações emergenciais, mas também a formação contínua, a compra de equipamentos, a manutenção das estruturas locais, o fortalecimento das redes regionais. Significa, sobretudo, reconhecer que quem protege a floresta também está protegendo nossa água, nosso ar, nossa possibilidade de existir amanhã.

Beatriz Roseiro, do Fundo Casa Socioambiental, destaca a importância do apoio direto às brigadas como estratégia de justiça climática. Foto: Camila Araújo (ISPN)
A experiência do Fundo Casa Socioambiental mostra, há 20 anos, que o enfrentamento à crise climática precisa partir de quem já tem as soluções. E essas soluções nascem nos territórios, com base no conhecimento tradicional, na ação coletiva e no compromisso com a vida. Por isso, o apoio direto às brigadas é também uma estratégia de justiça climática.
“Nós sabemos o impacto que esse trabalho tem. Falando em nível global, essas ações reduzem emissões de gases de efeito estufa, protegem a biodiversidade e contribuem para o equilíbrio climático do planeta. Mas, acima de tudo, é um trabalho movido pelo amor ao território. O que vimos nesses dias foi a potência de uma rede que se forma pela confiança, pela escuta e pela colaboração entre pares”, afirma Beatriz Roseiro, gestora de programas do Fundo Casa.
Com o apoio de financiadores nacionais e internacionais, o Fundo Casa tem conseguido fortalecer iniciativas locais com recursos flexíveis e processos de escuta adaptados à realidade das comunidades. A importância desse apoio direto foi reafirmada por Vanessa Lucena, representante da Bem-Te-Vi Diversidade, uma das organizações financiadoras presentes no encontro.
“Nosso apoio é muito pequeno perto do que vocês realmente fazem, do que vocês doam. A saúde, o tempo, a energia colocada por cada brigadista nos territórios é algo que nos inspira. A gente busca viabilizar caminhos, apoiar processos, mas o maior protagonismo é de vocês, que estão fazendo acontecer nos territórios”, afirma Vanessa Lucena.
Apoiar brigadas é investir em soluções que funcionam. É reconhecer a sabedoria de quem cuida do território como forma de vida. E é, sobretudo, garantir que a luta contra os incêndios comece antes da fumaça, com estrutura, continuidade e justiça.
As políticas públicas precisam contemplar as brigadas como parte central da estratégia de enfrentamento à crise do clima. E o financiamento climático hegemônico precisa sair do discurso e chegar onde ele realmente importa: nos territórios, nas mãos de quem já está fazendo o trabalho acontecer.
