17.10.2025

Apoio às comunidades é fundamental para resistir ao avanço dos combustíveis fósseis

Petróleo avança e as comunidades resistem: saiba como o Fundo Casa fortalece iniciativas de base

Enquanto discursos oficiais celebram novos ciclos de exploração, são essas populações que sentem, no cotidiano, os impactos mais profundos e desiguais desse modelo energético.

Esse dilema é vivenciado diretamente nos territórios onde povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pescadores e agricultores familiares lutam diariamente para proteger seus modos de vida. A exploração de hidrocarbonetos ameaça a água, a terra, a pesca e a agricultura que sustentam milhares de famílias.

“Quando falamos em exploração de petróleo e gás na Amazônia, falamos também de impactos sociais, culturais e ambientais. As comunidades ficam sem informação, sem consulta, e os projetos avançam como se fossem inevitáveis. Mas eles não são. Existe resistência e existe conhecimento local para dizer não”, afirma Sila Mesquita, coordenadora do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), que acompanha de perto a realidade na região Amazônica. 

Lideranças indígenas do Oiapoque se posicionam em defesa da Amazônia e do oceano, reafirmando o não à exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Foto: Arquivos GTA

Essa resistência, porém, enfrenta desigualdades estruturais. Enquanto empresas contam com grandes equipes técnicas, lobby político e comunicação de massa, as comunidades precisam defender seus direitos com poucos recursos. É nesse ponto que entram os apoios da filantropia socioambiental comunitária. 

Desde 2005, o Fundo Casa Socioambiental tem apoiado projetos que fortalecem lideranças, articulam comunidades e dão visibilidade a riscos que, muitas vezes, passam despercebidos pelo debate público. Ao longo dessa trajetória, já apoiamos 64 iniciativas no Brasil e em outros países sul-americanos, voltadas ao monitoramento de vazamentos e contaminações, à oferta de assessoria jurídica a quem defende seus territórios e ao fortalecimento de respostas comunitárias diante de ameaças socioambientais, reconhecendo e fortalecendo as soluções que já existem nas comunidades.

Para Sila Mesquita, “o que está em jogo é a devastação de ecossistemas únicos e o ataque direto às comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e agricultores familiares”. Segundo ela, a exploração avança em nome de um suposto desenvolvimento, mas que, na prática, significa destruição e concentração de renda. “Estamos diante de uma guerra contra a Amazônia e seus povos, travada em nome de um falso desenvolvimento, mas que na verdade é pura destruição”, afirma. 

Nesse contexto, o apoio a comunidades e organizações locais tem sido essencial para enfrentar os riscos. Financiar estudos técnicos independentes, por exemplo, ajuda a desmontar o discurso oficial das empresas e governos, evidenciando os impactos irreversíveis da exploração de hidrocarbonetos. Além disso, projetos de formação política e técnica têm fortalecido lideranças que hoje resistem não apenas à pressão corporativa, mas também à máquina estatal.

Sila Mesquita afirma ser fundamental que a luta seja apresentada de forma ampla, dando visibilidade não apenas às vulnerabilidades, mas também à força e à visão de futuro das comunidades amazônicas. 

“Não podemos falar da Amazônia apenas como forma abstrata, aqui habitam pessoas que dependem da integridade de seu território para continuarem vivendo. E que fique claro: não existe transição energética verdadeira se ela não for também uma transição social, anticapitalista e profundamente democrática, construída desde baixo, pelos povos que há milênios cuidam desta floresta.”
Sila Mesquita, coordenadora do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA)

Filantropia socioambiental fortalece comunidades do Maranhão contra os impactos da indústria do gás

No Maranhão, o Vale do Mearim e o litoral oeste do estado vivem uma disputa silenciosa, mas decisiva para o futuro de centenas de famílias. De um lado, a expansão da indústria do gás natural, com projetos de gasodutos e terminais de armazenamento. Do outro, comunidades quilombolas, extrativistas e ribeirinhas que resistem para garantir sua permanência em territórios habitados há séculos.

Na comunidade Papagaio, em Santa Rita (MA), moradores vivem a expectativa e as incertezas diante do projeto da Eneva de construir um gasoduto para transportar gás do Vale do Mearim até a região portuária de São Luís.

O projeto “Fortalecimento dos grupos e comunidades de base frente à exploração de combustíveis fósseis na bacia do Rio Mearim”, apoiado pelo Fundo Casa Socioambiental, nasce justamente nesse contexto. Seu objetivo é acompanhar o processo de licenciamento desses empreendimentos, coletar informações, mobilizar comunidades e dar visibilidade aos impactos da exploração do gás. A meta está traçada: fortalecer a luta pelo território e pelos modos de vida tradicionais.

Mayron Régis, coordenador da iniciativa, explica que “os principais impactos são na água e na terra. As pessoas já não têm mais água boa para beber, os aquíferos estão comprometidos. E, além disso, há a perda das áreas de plantio, o que afeta diretamente a produção de alimentos das comunidades. O mais grave é que tudo acontece sem transparência: quase não houve audiências públicas, não há clareza sobre compensações ou fiscalização. As comunidades vivem na incerteza.”

A situação não é isolada. O Maranhão já enfrenta pressões de grandes empreendimentos há décadas, do agronegócio à mineração, passando por projetos de portos e estradas. Agora, com a promessa do gás como “combustível de transição”, o estado se vê no centro da disputa energética. Mas, para as comunidades, o discurso de modernização não compensa os riscos.

“O governo federal trata o gás como uma riqueza estratégica e facilita o caminho das empresas. Mas quem vive no território quase nunca é ouvido. É comum ver comunidades reclamando, mas ninguém escuta. O nosso papel é justamente esse: coletar informações, produzir materiais, realizar reuniões e seminários para que essas vozes tenham força e possam intervir no processo,” explica Mayron.

O projeto prevê a realização de pesquisas, encontros comunitários e a produção de materiais informativos sobre os impactos da indústria do gás. Estima-se que cerca de 500 pessoas sejam beneficiadas diretamente, entre agricultores, pescadores, quilombolas e extrativistas, além de centenas indiretamente.

O apoio da filantropia socioambiental é o que garante a continuidade dessa resistência. “Com o recurso do Fundo Casa, a gente consegue viajar, reunir comunidades, produzir materiais. Isso é muito valioso. Permite que a luta continue, que a informação circule. É isso que fortalece as comunidades diante de projetos tão grandes e complexos,” afirma Mayron.

O que está em jogo é o direito de existir de comunidades que há séculos preservam a terra, a memória e a cultura no Maranhão. E, num cenário de mudanças climáticas e pressões crescentes sobre os territórios, apoiar essas iniciativas é reconhecer que a verdadeira transição energética só pode ser justa se ouvir e respeitar quem já vive da e pela natureza.

 

Fracking no Maranhão: riscos e disputas em curso

O fraturamento hidráulico, mais conhecido como fracking, é uma técnica de extração de gás e petróleo que consiste em injetar grandes volumes de água misturados a areia e produtos químicos em alta pressão, para fraturar rochas subterrâneas e liberar hidrocarbonetos. Apesar de prometer alta produtividade, a prática está associada a impactos severos: contaminação de aquíferos, risco sísmico, emissão de metano (gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂) e perda de áreas de cultivo.

No Brasil, alguns estados — como Paraná e Santa Catarina — já proibiram o fracking, mas no Maranhão não há legislação que impeça a prática. A empresa Eneva, que já opera no estado, busca licenciamento para realizar estudos com a técnica, especialmente na região de Santo Antônio dos Lopes. Organizações socioambientais alertam, porém, que “não há como estudar o fracking sem praticá-lo”, já que mesmo testes iniciais implicam a perfuração e a injeção de fluidos químicos.

O debate ganhou novos contornos em 2024, quando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) começou a analisar se a técnica poderia ser autorizada nacionalmente. Caso isso ocorra, abriria um precedente para a entrada do fracking em todo o território brasileiro.

No Maranhão, a pressão se soma a um histórico de vulnerabilidade: conflitos fundiários, insegurança hídrica e baixa participação das comunidades nos processos de licenciamento. Para movimentos sociais, a chegada do fracking em um território já marcado pela desigualdade socioambiental representa não apenas um risco ambiental, mas também uma ameaça direta à soberania alimentar e à permanência das comunidades em seus territórios.

As palavras de Sila Mesquita e Mayron Borges ressoam em consonância: o problema não é apenas ambiental, mas de justiça social e climática

Os impactos da indústria fóssil recaem de forma desproporcional sobre populações que já convivem com vulnerabilidades históricas, como falta de saneamento, precariedade de infraestrutura e insegurança alimentar. Nesse contexto, apoiar organizações de base significa fortalecer esses grupos que estão em uma disputa desigual, em que a informação, a mobilização e a incidência política tornam-se ferramentas de sobrevivência.

O avanço dos combustíveis fósseis no Brasil acontece em paralelo ao agravamento da crise climática. A seca histórica na Amazônia em 2023, os recordes de calor em 2024 e as queimadas que se espalham neste ano são exemplos de como os efeitos do aquecimento global já afetam diretamente a vida das pessoas. Continuar apostando em petróleo e gás amplia esses impactos e distancia o país de suas metas climáticas.

Frente a isso, as comunidades locais oferecem iniciativas que grandes projetos não conseguem: soluções baseadas na natureza, negócios da sociobiodiversidade e formas de uso sustentável da terra e da água que garantem conservação ambiental, soberania alimentar, renda e cultura.

Os apoios do Fundo Casa mostram que soluções que já existem nos territórios podem se transformar em força coletiva. Ao fortalecer brigadas comunitárias, articulações indígenas e campanhas contra o fracking, cada projeto apoiado se torna um fio que tece resistência, memória e esperança, mostrando que outro caminho é possível diante do modelo extrativista predatório.

Apoiar essas iniciativas é escutar a voz da floresta, das periferias urbanas e das comunidades tradicionais, reconhecer saberes ancestrais e cotidianos, e valorizar a criatividade que brota onde poucos olham. É entender que a luta contra o avanço dos fósseis não se resume a barrar empreendimentos, mas a abrir espaço para outros caminhos, construídos a partir da escuta ativa dos territórios, que continuam cuidando da terra, da água e das histórias que carregam consigo.



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