10.12.2025
Somos as sementes do que cultivamos
Com a doação de MacKenzie Scott, seguimos ampliando o apoio às soluções que sustentam a vida
Ao longo de duas décadas, o Fundo Casa Socioambiental vem afirmando que o valor humano nem sempre cabe em planilhas ou métricas. As vidas e projetos que apoiamos em cada território promovem transformações reais: um rio protegido, um grupo de mulheres que se fortalece, uma semente criola preservada, uma brigada comunitária que salva florestas. Quando apoiamos comunidades que criam suas próprias soluções, sabemos que estamos acionando cadeias invisíveis de impacto que se desdobram por anos, às vezes por gerações.
No dia 9 de dezembro de 2025, MacKenzie Scott, ativista e filantropa norte-americana, publicou um texto que é, ao mesmo tempo, um manifesto e um convite: “We are the ones we’ve been waiting for”. Nele, Scott reafirma uma visão rara no campo da filantropia global: a certeza de que o ato de doar não é um gesto isolado, mas uma ação capaz de se multiplicar em ondas de transformação que talvez nunca tenhamos a dimensão por completo.
Anunciamos com alegria e profunda responsabilidade que o Fundo Casa integra novamente o grupo de organizações apoiadas por MacKenzie Scott. Recebemos esse gesto como reconhecimento e sobretudo como uma aposta de que nosso modo de atuar, direto, descentralizado, sistêmico e comprometido com a autonomia de comunidades locais, é parte da resposta urgente de que o planeta precisa.
Cada ato de cuidado cria uma onda de energia transformadora. E nós vemos conexões florescerem todos os dias, em todos os biomas brasileiros, com os quase 5.000 apoios que pudemos fazer chegar às comunidades durante nossos 20 anos de história. Filantropia, para nós, nunca foi uma simples transação bancária. Sempre foi uma relação profunda com nossos territórios, que valoriza, acima de tudo, a confiança. Uma confiança que antecede os resultados e reconhece claramente que “o potencial da contribuição pacífica e não-transacional tem sido subestimado há muito tempo, muitas vezes sob a justificativa de que não é financeiramente autossustentável ou de que alguns de seus benefícios são difíceis de medir”, como menciona Scott em seu texto, é exatamente a essência da nossa existência. Confiamos porque conhecemos os territórios e as comunidades como ninguém, numa jornada longa e coletiva, de parcerias que se fortalecem, crescem e se expandem contínua e exponencialmente.
Apoios como esse têm um peso político inegável no campo filantrópico: reafirmam que soluções efetivas para a crise climática estão nos territórios, nas mãos das comunidades locais e tradicionais, reconhecendo seu protagonismo.
Assim como recebemos esse voto de confiança, vamos ampliá-lo. Seguiremos fortalecendo o ecossistema de fundos locais e territoriais no Brasil e no Sul Global, nutrindo redes, conectando organizações irmãs, apoiando novas estruturas de financiamento comunitário que emergem com força. Faremos isso partilhando metodologias, aprendizados e caminhos trilhados.
Como lembra Scott, “há muitas maneiras de influenciar como nos movemos pelo mundo”. Não precisamos esperar que existam ferramentas perfeitas para agir. Precisamos agir já, com cuidado, com coragem, com intenção verdadeira. Essa doação chega em um momento em que o Fundo Casa amplia seu escopo de atuação, aprofunda sua agenda de adaptação climática e fortalece sua participação em alianças internacionais.
Desejamos avançar sobre desafios estruturais que há muito reconhecemos: aumentar a escala sem perder o vínculo; ampliar sem burocratizar; crescer sem nos afastar da escuta.
Honradas pelo reconhecimento, seguimos fiéis à nossa missão: apoiar ações concretas de fortalecimento comunitário, que possibilitam um futuro comum, onde as florestas permanecem em pé, a água renasce e as comunidades prosperam com autonomia e dignidade. Porque agimos a partir de uma certeza inabalável — essa é a equação que vai garantir que a vida na Terra continue.
Se o reconhecimento das comunidades como sujeitos da transformação é uma ação que retorna de formas surpreendentes, que este seja o início de um novo ciclo virtuoso, não só para o Fundo Casa, mas para todo o ecossistema de fundos locais, redes territoriais e guardiões dos biomas que sustentam a vida e o clima no planeta.
Maria Amalia Souza – Diretora de Estratégias Globais na Filantropia
Cristina Orphêo – Diretora Executiva
