12.03.2026
Fundo Casa Socioambiental lança publicação sobre liderança de mulheres na ação climática
“Mulheres Potentes – Financiando Gênero e Liderança na Ação Climática” reúne aprendizados da Aliança GAGGA e será apresentada em evento online no dia 18 de março.
Há conhecimentos que atravessam gerações. Saberes transmitidos entre avós, mães e filhas, guardados nas sementes, nas plantas medicinais, nas formas de cuidar da terra e das pessoas. Em muitos territórios da América do Sul, são as mulheres que mantêm vivos esses conhecimentos e que estão na linha de frente das respostas comunitárias à crise climática.
É dessa força coletiva que nasce a publicação “Mulheres Potentes – Financiando Gênero e Liderança na Ação Climática”, lançada pelo Fundo Casa Socioambiental. Escrita pela pesquisadora Graciela Hopstein, a publicação analisa a atuação do Fundo Casa no âmbito da Aliança GAGGA (Global Alliance for Green and Gender Action), iniciativa internacional dedicada a fortalecer organizações comunitárias lideradas por mulheres e pessoas dissidentes do sistema sexo-gênero que atuam na defesa do meio ambiente e da justiça climática.
O estudo reúne dados, análises e experiências do período de 2021 a 2024, a partir do trabalho direto com comunidades e organizações de base em diferentes territórios do Sul Global. Nesse intervalo, o Fundo Casa apoiou 75 organizações e coletivos comunitários no Brasil, Paraguai e Bolívia, com cerca de R$ 3,5 milhões em doações. São iniciativas lideradas por mulheres indígenas, quilombolas, agricultoras, pescadoras, ribeirinhas, ativistas urbanas e também por coletivos de pessoas trans e não binárias.
Esses apoios possibilitaram desde projetos de agroecologia, reflorestamento e produção agroflorestal até ações de comunicação comunitária, formação política, fortalecimento de redes territoriais e iniciativas de incidência em políticas públicas. Ao reunir essas experiências, a publicação busca sistematizar aprendizados sobre como o financiamento comunitário pode fortalecer lideranças locais e ampliar o impacto das soluções que já estão sendo construídas nos territórios.
A publicação integra a série Mulheres Potentes, que reúne reflexões e experiências sobre a relação entre gênero, território e justiça climática. O estudo foi elaborado a partir da análise de dados, revisão documental e entrevistas com lideranças comunitárias, financiadores, organizações parceiras e integrantes da equipe do Fundo Casa.
A pesquisa permite compreender processos como o fortalecimento de lideranças femininas, a formação de redes entre movimentos feministas e socioambientais e a ampliação da incidência política de organizações comunitárias. Ao mesmo tempo, reafirma um ponto central para o debate climático: muitas das respostas para enfrentar as crises socioambientais já estão sendo construídas pelas comunidades que vivem e cuidam dos territórios.
Quando a solução nasce da comunidade
Um exemplo dessas iniciativas pode ser encontrado no território quilombola de Itacuruçá, em Abaetetuba, no Pará. Ali, o Coletivo Mãe Preta: Sementes da Ancestralidade desenvolveu o projeto “Jirau Medicinal Quilombola no Território do Itacuruçá”, apoiado pelo Fundo Casa no âmbito da chamada Resiliência Climática e Equidade de Gênero.
A iniciativa partiu de um conhecimento antigo da comunidade: o uso de ervas e plantas medicinais para o cuidado com a saúde e o bem-estar das famílias. Com o apoio recebido, o coletivo construiu um jirau medicinal quilombola, que é uma estrutura de cultivo coletivo, destinada ao plantio e à preservação de espécies tradicionais utilizadas pelas famílias da comunidade.
O espaço reúne hoje cerca de 250 mudas de plantas medicinais. Ao longo do projeto, também foram realizadas oficinas sobre cuidados com o solo, compostagem, plantio de ervas e educação ambiental, além de intercâmbios entre comunidades quilombolas e uma feira cultural que reuniu saberes, produtos e práticas tradicionais.
As atividades envolveram moradores de diferentes comunidades da região e mobilizaram 100 mulheres participantes, fortalecendo o protagonismo feminino na preservação da biodiversidade e na transmissão de conhecimentos ancestrais.
Outro resultado importante foi o início de um processo de catalogação das espécies utilizadas pela comunidade. Até agora, já foram identificadas 140 espécies de plantas medicinais, que futuramente integrarão uma cartilha comunitária sobre medicina tradicional.
Segundo relatos das próprias famílias, o projeto também despertou um novo interesse pelo cultivo de plantas medicinais nos quintais e ampliou a procura por remédios caseiros feitos a partir das espécies cultivadas no jirau. O espaço se tornou um lugar de encontro, aprendizado e fortalecimento cultural, onde o conhecimento das parteiras, benzedeiras, remedeiras e guardiãs dos saberes tradicionais continua sendo transmitido entre gerações.
Experiências com projetos como esse refletem uma realidade observada em diferentes regiões do mundo: mulheres estão entre as principais protagonistas das iniciativas de proteção ambiental e defesa dos territórios. Ao mesmo tempo, são frequentemente as mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas e por desigualdades estruturais.
Apoiar essas lideranças, portanto, não é apenas uma questão de equidade, mas uma estratégia fundamental para fortalecer soluções climáticas enraizadas nos territórios. Ao longo da trajetória da Aliança GAGGA, mais de quatro mil iniciativas lideradas por mulheres e dissidências de gênero foram apoiadas globalmente, fortalecendo redes comunitárias e ampliando o debate sobre justiça climática.
Lançamento da publicação
O lançamento da publicação será realizado em um bate-papo online no dia 18 de março de 2026, das 10h às 11h (horário de Brasília). O encontro reunirá representantes de organizações e lideranças que participaram da trajetória da Aliança GAGGA.
O evento terá mediação de Vanessa Ourique Purper, gestora de programas do Fundo Casa Socioambiental, e contará com a participação de: Maria Amália Souza, fundadora do Fundo Casa Socioambiental; Graciela Hopstein, autora da publicação; Tamara Mohr, da Both ENDS; Élida Miranda dos Santos, do Fundo Positivo; Eduardo Berton, da Fundación Socioambiental Semilla; Divanira Arapiun, liderança indígena do povo Arapiun.
O evento será realizado online, com tradução em português, espanhol e inglês, e a participação será aberta mediante inscrição prévia.
Fundo Casa e os aprendizados da Aliança GAGGA
Para o Fundo Casa Socioambiental, a experiência com a Aliança GAGGA trouxe aprendizados institucionais importantes. A parceria contribuiu para fortalecer a integração da perspectiva de gênero em diferentes programas da organização e influenciou a criação da Política de Gênero do Fundo Casa, lançada em 2025.
Ao reunir histórias, dados e reflexões acumuladas ao longo dessa trajetória, a publicação “Mulheres Potentes – Financiando Gênero e Liderança na Ação Climática” evidencia que muitas das respostas para enfrentar a crise climática já estão presentes nos territórios.
São soluções construídas por comunidades e lideranças locais — especialmente mulheres que, todos os dias, seguem cuidando da terra, das florestas e da vida.
