17.07.2026

Da COP 27 à COP 31: como o Fundo Casa transformou a participação nas Conferências do Clima em uma estratégia para fortalecer as vozes dos territórios e ampliar o debate sobre financiamento climático

Em 2020, a agenda climática internacional começou a mudar de escala. Novos compromissos financeiros foram gradativamente anunciados desde então, a filantropia ampliava seu olhar para a crise climática e as Conferências das Partes (COPs) passavam a ocupar um lugar cada vez mais estratégico nas decisões globais.

Ao mesmo tempo, uma inquietação crescia dentro do Fundo Casa Socioambiental: apesar do tema do financiamento climático se tornar central, a discussão sobre mecanismos de como esses recursos estariam acessíveis para grupos e comunidades nos territórios não caminhavam da mesma forma e mais que isso havia um enorme desconhecimento de estruturas de financiamento existentes no Sul Global.

Como garantir que essas estruturas fossem reconhecidas e contempladas tanto nos mecanismos oficiais da Convenção do Clima quanto nos compromissos da filantropia e da cooperação internacional? A resposta foi construída ao longo dos anos, a partir de aprendizados, parcerias e de uma compreensão mais profunda sobre os espaços onde as grandes decisões são tomadas. Uma coisa se tornou evidente: era preciso estar presente, compreender essa dinâmica e participar do debate sobre financiamento climático.

Dessa trajetória nasceu a Jornada de Aprendizagem, um processo permanente de formação que passou a integrar uma estratégia mais ampla de incidência política, fortalecimento de lideranças e democratização do financiamento climático.

Primeira delegação organizada pelo Fundo Casa para uma Conferência do Clima. A participação na COP 27 marcou o início de uma estratégia voltada ao fortalecimento da incidência de organizações comunitárias, lideranças territoriais e parceiros nas negociações internacionais.

 

Uma decisão que mudou a forma de atuar

Delegação do Fundo Casa na COP 29, em Baku, no Azerbaijão. A participação reuniu lideranças comunitárias, organizações da sociedade civil, representantes da filantropia e parceiros estratégicos, ampliando a incidência dos territórios nas negociações internacionais.

Para Cristina Orpheo, diretora executiva do Fundo Casa, a decisão de construir uma estratégia de atuação nas COPs surgiu quando a agenda climática passou a ocupar esse  lugar central na filantropia internacional e nas negociações globais. Naquele momento, novos compromissos financeiros eram anunciados e o debate sobre financiamento climático ganhava força. A questão era como fazer esses recursos chegarem às organizações que, todos os dias, protegem florestas, rios, manguezais, cerrados, periferias e outros territórios.

“O Fundo Casa já conhecia essa resposta porque fazia isso havia muitos anos. Construímos mecanismos para apoiar organizações comunitárias de forma direta, ágil e baseada em relações de confiança. Quando percebemos que o financiamento climático passava a ocupar o centro das discussões internacionais, entendemos que essa experiência precisava fazer parte desse debate. Não bastava acompanhar as COPs. Era preciso contribuir para transformar a forma como esses recursos chegam aos territórios.”
Cristina Orpheo, diretora executiva do Fundo Casa

A pandemia adiou os primeiros passos dessa estratégia. Em 2021, a organização optou por não participar presencialmente da COP por responsabilidade diante da Covid-19. O período, porém, foi aproveitado para estudar o funcionamento das negociações internacionais, aprofundar a compreensão sobre financiamento climático e desenhar uma forma própria de atuação.

Quando a delegação chegou à COP 27, no Egito, em 2022, o objetivo estava consolidado. Não se tratava apenas de marcar presença em uma conferência internacional, mas de defender que as comunidades deixassem de ser vistas apenas como beneficiárias de políticas climáticas e passassem a ser reconhecidas como protagonistas das soluções e interlocutoras legítimas nas decisões globais.

“Também entendemos, desde o início, que essa não poderia ser uma estratégia do Fundo Casa sozinho. Se defendemos que os recursos precisam chegar às comunidades, são essas comunidades que precisam estar nesses espaços, apresentando suas agendas, construindo alianças e dialogando diretamente com financiadores e tomadores de decisão. Da mesma forma, fortalecer outros fundos socioambientais, comunitários e territoriais era parte dessa mudança, assim como dar visibilidade aos Fundos do Sul Global  e mostrar que existe um campo inteiro trabalhando para aproximar os recursos dos territórios. Democratizar o financiamento climático também significa democratizar quem participa das decisões”, contou Cristina.

Foi dessa compreensão que nasceu a Jornada de Aprendizagem, as caravanas para as conferências internacionais, as chamadas voltadas ao fortalecimento da incidência climática e uma estratégia permanente de formação e articulação. O objetivo principal passou a ser criar condições para que cada vez mais lideranças chegassem a esses espaços preparadas para influenciar debates que impactam diretamente seus territórios.

Delegação do Fundo Casa na COP 29, em Baku, no Azerbaijão. A participação reuniu lideranças comunitárias, organizações da sociedade civil, representantes da filantropia e parceiros estratégicos, ampliando a incidência dos territórios nas negociações internacionais.

 

Participar exige preparação

A Jornada de Aprendizagem é um conjunto de oficinas formativas que nasceu em 2022 como parte da estratégia do Fundo Casa para fortalecer a participação de organizações comunitárias, lideranças dos territórios, representantes da filantropia e parceiros nas Conferências das Partes (COPs). Ela foi concebida para aproximar os debates globais da realidade dos territórios e preparar seus participantes para atuar de forma qualificada antes, durante e depois das conferências.

Desde os primeiros ciclos, a metodologia foi construída com a colaboração de Rubens Harry Born, que há mais de quatro décadas acompanha os regimes multilaterais ambientais e contribuiu para transformar um tema frequentemente percebido como técnico em um processo de aprendizagem conectado à realidade das organizações comunitárias.

“Durante muito tempo houve uma separação entre quem atuava na esfera local e quem acompanhava as negociações globais. Na Eco-92 dizia-se ‘pensar globalmente, agir localmente’. Mas o contrário também é verdadeiro: é preciso pensar localmente e agir globalmente. Quem participa das negociações internacionais precisa conhecer a realidade dos territórios, e quem atua nos territórios também precisa compreender como essas negociações influenciam sua vida e suas comunidades.” Rubens Harry Born, Fundador do Fundo Casa, Consultor Especializado em Clima e Regimes Multilaterais

As formações passaram a criar uma ponte entre os conhecimentos produzidos nos territórios e os processos internacionais, mostrando como decisões tomadas nas COPs influenciam políticas públicas, financiamento climático e estratégias de conservação, ao mesmo tempo em que fortalece a capacidade das organizações de levar suas próprias experiências para esses espaços.

Ao longo dos anos, a Jornada também ampliou seu escopo. Se inicialmente o foco era apresentar o funcionamento do regime climático internacional, hoje as formações abordam temas como financiamento climático, adaptação, biodiversidade, transição energética, justiça climática, transparência, comunicação estratégica e construção de alianças.

“A Jornada permite o diálogo entre entidades filantrópicas, organizações apoiadas, representantes de governos, da sociedade civil e da academia que atuam nos processos multilaterais. Essa troca de saberes fortalece uma compreensão crítica sobre as relações entre o local e o global e estimula um processo de formação antes da participação em um encontro internacional. É como uma viagem: antes de viajar é preciso conhecer o roteiro, saber o que levar na mala e entender como aproveitar melhor esse percurso”, destaca Rubens.

A proposta também é ampliar as possibilidades de incidência das organizações, mostrando que a participação nas COPs não se limita às salas de negociação, mas envolve a construção de alianças, a circulação de conhecimentos e a ocupação de diferentes espaços de diálogo ao longo de todo o processo.

A diversidade de organizações e lideranças presentes nas Jornadas também passou a ser um dos principais diferenciais da iniciativa. Ao reunir povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas, organizações da agricultura familiar, fundos comunitários, filantropia e pesquisadores, a formação fortalece agendas comuns sem perder de vista as especificidades de cada território.

Para Rubens, a existência da multiplicidade de vozes é muito importante. “Há desafios comuns, como o enfrentamento da crise climática, mas é fundamental que não se dilua a especificidade de cada grupo, de cada comunidade e de cada território. As diversas vozes nos espaços de incidência permitem trazer a singularidade da realidade local somada aos desafios comuns que estão presentes em todos os territórios”, afirma.

Quando quem vive o território passa a falar por ele

Selma Dealdina Mbaye, liderança quilombola e da CONAQ, durante a COP 28, em Dubai. Presente desde o início da estratégia construída pelo Fundo Casa, contribuiu para afirmar que o protagonismo dos territórios deveria estar no centro da participação nas Conferências do Clima.

 

Entre as lideranças que acompanharam essa construção desde os primeiros anos está Selma Dealdina Mbaye, atual presidenta do Conselho Deliberativo do Fundo Casa e uma das principais referências do movimento quilombola brasileiro. Sua trajetória ajuda a traduzir um dos principais objetivos da estratégia de ampliar a presença de quem historicamente esteve à margem das negociações internacionais.

“Quando o Fundo Casa garante a participação de lideranças dos movimentos sociais, ele abre uma porta para que essas pessoas conheçam esse espaço, compreendam como ele funciona e possam ocupar esse lugar com argumentos, propostas e soluções. Nossos corpos-territórios precisam estar nas COPs para falar dos problemas, mas também para apresentar caminhos. Esse sempre foi o diferencial dos movimentos sociais.”
Selma Dealdina Mbaye, presidenta do Conselho Deliberativo do Fundo Casa

Selma lembra que participar de uma COP nunca foi simples. O acesso às credenciais, os altos custos de viagem, hospedagem e alimentação e até as barreiras linguísticas acabam afastando justamente os povos do campo, das águas e das florestas. Por isso, ela defende que preparar lideranças antes da conferência é tão importante quanto garantir sua presença durante o evento.

“É fundamental chegar preparada, entender o que é uma COP, por que ela existe e o que aquelas decisões têm a ver com a vida das nossas comunidades. Não podemos permitir que decidam sobre nossos territórios sem ouvir quem vive neles. Quando o povo participa da COP, ela começa a se tornar um espaço mais democrático e mais popular “, destaca.

Essa percepção também foi se transformando ao longo da própria trajetória da liderança quilombola. Segundo Selma, a primeira impressão de quem chega a uma conferência costuma ser a de um ambiente distante, técnico e pouco acolhedor. Mas ela acredita que é justamente por isso que os movimentos sociais precisam permanecer nesses espaços.

Ao longo dos anos, Selma diz ter aprendido que as lutas se conectam para além das fronteiras. Conversar com organizações de outros países, conhecer experiências e construir alianças internacionais mostrou que, embora os contextos sejam diferentes, os desafios enfrentados pelas comunidades tradicionais se repetem em várias partes do mundo.

Para os próximos anos, Selma sonha com conferências mais abertas à participação popular e com uma presença cada vez maior das comunidades locais nos espaços de decisão.  “O nosso sonho é ver mais mulheres, jovens, pessoas negras, indígenas, quilombolas e populações tradicionais ocupando esses espaços.

“Uma COP democrática é aquela em que as pessoas deixam de ser apenas tema das negociações e passam a participar das decisões. Nós não devemos ter medo desses espaços. Apesar do susto, precisamos continuar ocupando, insistindo e mostrando que ninguém fala melhor dos territórios do que quem vive neles”, conclui.

Um marco para a filantropia do Sul Global

Maria Amalia Souza ao lado de representantes de fundos socioambientais do Sul Global durante encontro promovido pela Casa Sul Global na Semana de Ação Climática de Londres. Entre eles, Josimara Baré, representando os fundos indígenas.

Maria Amalia Souza ao lado de representantes de fundos socioambientais do Sul Global durante encontro promovido pela Casa Sul Global na Semana de Ação Climática de Londres. Entre eles, Josimara Baré, representando os fundos indígenas.

A trajetória construída pelo Fundo Casa nas Conferências do Clima também mostrou que ampliar a participação dos territórios nesses espaços estava diretamente ligado a uma transformação mais ampla na forma como o financiamento climático é pensado e distribuído.

Ao longo dos últimos anos, além de preparar lideranças e apoiar a presença de organizações comunitárias nas COPs, o Fundo Casa participou do fortalecimento de redes e articulações voltadas a aproximar os recursos das comunidades que atuam diretamente na proteção dos territórios. A COP 30, realizada em Belém, foi um momento de encontro dessas diferentes iniciativas. A conferência reuniu organizações apoiadas pelo Fundo Casa, fundos comunitários da Amazônia, integrantes da Rede Comuá (constituída pelos fundos da filantropia para justiça social no Brasil), da Alianza Socioambiental Fondos del Sur (formada por fundos socioambientais de diferentes países da Ásia, África e América Latina) e os fundos comunitários da amazônia brasileira. Todas essas articulações se voltaram a construção de uma agenda comum pelo fortalecimento do financiamento direto às comunidades.

Nesse contexto, a Casa Sul Global ganhou projeção como uma plataforma de engajamento político, mobilização, produção de conhecimento e colaboração entre atores da filantropia do Sul Global. A iniciativa busca fortalecer a participação dessas organizações nos debates internacionais sobre clima, natureza e financiamento.

Para Maria Amalia Souza, fundadora e diretora de Estratégias Globais para a Filantropia do Fundo Casa, esse momento representou a consolidação de um trabalho construído ao longo de muitos anos. “Quando olho para a COP 30 e vejo os fundos socioambientais do Sul Global reunidos, muitos dos quais ajudamos a criar, fortalecer ou acompanhar ao longo dos anos, vejo o resultado de um enorme investimento político. A criação da Alianza Fondos del Sur, da Rede Comuá, o fortalecimento dos fundos comunitários da Amazônia e a construção da Casa Sul Global fazem parte desse processo. Conseguimos reunir 41 fundos do Sul Global em um espaço próprio para discutir filantropia climática a partir das nossas realidades.”

Segundo Maria Amalia, a COP 30 demonstrou a força de uma articulação construída ao longo de décadas e mostrou que os próprios fundos comunitários e territoriais possuem experiência e legitimidade para contribuir com uma nova arquitetura de financiamento climático.

“O Sul Global reúne as grandes florestas, os maiores rios, as maiores áreas úmidas e uma parte essencial da biodiversidade do planeta. Por isso, nossas estruturas precisam ser reconhecidas como os caminhos mais legítimos, mais rápidos e de maior escala para fazer o financiamento chegar às comunidades. Passou da hora de sermos protagonistas desse processo e de construir relações de confiança mais sólidas com os grandes financiadores”
Maria Amalia Souza, fundadora e diretora de Estratégias Globais para a Filantropia do Fundo Casa

Essa trajetória também reflete um trabalho iniciado antes mesmo da criação do Fundo Casa, voltado à construção de uma nova narrativa sobre o papel da filantropia e sobre a importância de apoiar quem vive nos territórios onde os desafios socioambientais são mais intensos. “A nossa visão sempre foi a de que a proteção da vida no planeta começa pelo fortalecimento das pessoas que vivem nos territórios mais importantes e, ao mesmo tempo, mais negligenciados pela filantropia internacional. Na COP 30, o mais significativo foi perceber que essa agenda já não depende apenas do Fundo Casa. Ela passou a ser conduzida coletivamente por uma rede muito maior.”

Para Maria Amalia, embora ainda exista um longo caminho para transformar a lógica do financiamento climático internacional, a articulação entre fundos comunitários e territoriais vem ampliando sua legitimidade e mostrando a demanda por novos modelos de parceria.

“Ainda não somos a primeira escolha da filantropia internacional, mas estamos construindo essa legitimidade coletivamente. A COP 30 foi mais um passo nesse caminho. Depois dela, vimos esse interesse crescer rapidamente. Na Semana de Ação Climática de Londres, por exemplo, a Casa Sul Global ultrapassou o número de inscrições. Isso mostra que existe uma demanda crescente por uma nova forma de pensar o financiamento climático, construída a partir das organizações do Sul Global”, conclui.

O próximo capítulo começa agora

A COP 30 marcou um ponto de chegada, mas também inaugurou uma nova etapa dessa trajetória. Com a COP 31, na Turquia, e a COP 17 da Convenção sobre Diversidade Biológica se aproximando, o Fundo Casa inicia mais uma nova edição da Jornada de Aprendizagem, ampliando seu escopo para integrar as agendas de clima e biodiversidade.

Ao longo dos próximos meses, organizações apoiadas,membros da Rede Comuá e especialistas voltarão a se reunir para compreender os principais temas das negociações internacionais, analisar os desafios que estarão em debate e construir estratégias de atuação para os espaços de incidência que antecedem e acompanham as conferências.

A cada edição, a Jornada também incorpora novos aprendizados. Os temas evoluem conforme avançam as negociações internacionais e as próprias experiências das organizações participantes. O processo formativo passa a dialogar cada vez mais com questões como financiamento climático, biodiversidade, transição energética, adaptação, justiça socioambiental e fortalecimento das organizações locais.

A iniciativa busca fortalecer capacidades permanentes. As relações construídas, os conhecimentos compartilhados e as alianças estabelecidas durante esse percurso continuam produzindo efeitos muito depois do encerramento de cada COP.

Se, em 2020, a pergunta era por que uma organização que atua diretamente nos territórios deveria participar das negociações internacionais, hoje a resposta faz parte da própria trajetória do Fundo Casa. Ao longo desses anos, entendemos que fortalecer comunidades também significa criar condições para que elas ocupem os espaços onde são discutidas políticas, acordos e mecanismos de financiamento que influenciam diretamente seus modos de vida.

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