19.10.2026

Financiar diretamente quem está no território: a construção de uma rede antinuclear no Brasil

Apoios diretos ajudaram a transformar informação, formação e articulação em ferramentas de participação social

O futuro da energia nuclear no Brasil continua sendo decidido em obras, gabinetes e instâncias técnicas, mas seus efeitos ultrapassam esses espaços. Em diferentes regiões do país, organizações da sociedade civil buscam produzir informação, acompanhar decisões públicas e criar condições para que as comunidades afetadas por atividades como a mineração de urânio participem do debate.

A discussão ganhou novos contornos com a retomada das obras de Angra 3, no Rio de Janeiro. A usina, que terá potência de aproximadamente 1.405 megawatts, está em construção há décadas e ainda demanda cerca de R$ 20 bilhões para ser concluída, segundo a própria Eletronuclear, empresa responsável pelas usinas. Em fevereiro de 2026, uma auditoria do Tribunal de Contas da União apontou inconsistências no orçamento de referência, insuficiência de recursos e os efeitos das sucessivas paralisações e retomadas do empreendimento.

Para além da discussão sobre quanto custa ou quanto pode gerar uma usina, porém, existe outra pergunta: quem produz informação sobre esses projetos e quem participa das decisões que afetam os territórios?

É nesse espaço que atua a Articulação Antinuclear Brasileira (AAB), uma rede criada em 2011 e formada por organizações da sociedade civil, pesquisadores, professores, movimentos sociais e ativistas. Desde então, a articulação tem trabalhado para ampliar o conhecimento público sobre a atividade nuclear no país, seus impactos e as alternativas para a política energética.

Para Zoraide Cardoso Vilasboas, da AAB, um dos primeiros desafios da rede foi justamente enfrentar a falta de informação e de transparência em torno do setor. “No início de nossas lutas, identificamos que um dos principais desafios seria romper a barreira do sigilo, falta de transparência e de controle social, que blinda o setor nuclear”, afirma.

A dificuldade, explica, não estava somente na ausência de informações produzidas pela sociedade. Havia também pouco conhecimento sobre a dimensão das atividades nucleares no Brasil e sobre seus impactos entre a população.

A criação de uma rede nacional permitiu conectar experiências que aconteciam em territórios distintos. Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Goiás passaram a fazer parte de uma articulação que atua em várias frentes. Em vez de uma organização concentrada em um único território, a AAB passou a funcionar como uma rede capaz de compartilhar informações, aproximar pesquisadores e movimentos e organizar ações em diferentes regiões.

Foi nesse processo que o apoio direto aos projetos ganhou importância.

Da informação à articulação

Integrantes da Articulação Antinuclear Brasileira durante o Fórum Social Temático – Energia, realizado em 2014.

Ao longo de mais de uma década, projetos apoiados pelo Fundo Casa Socioambiental e financiados pela Mott Foundation impulsionaram o fortalecimento da Articulação Antinuclear Brasileira. Nessa trajetória, foram realizadas uma sequência de apoios que acompanharam mudanças nos contextos e nas necessidades da rede.

Um dos primeiros projetos permitiu estruturar uma ação política coordenada sobre a questão nuclear no Brasil. Segundo Zoraide, a partir desse trabalho foram desenvolvidas iniciativas que aproximaram a AAB de universidades, pesquisadores e organizações sociais que atuavam nos territórios.

Em Caetité, na Bahia, onde existe atividade de mineração de urânio, a articulação participou de uma jornada de conhecimento ambiental realizada em parceria com a Universidade do Estado da Bahia, que resultou na produção de 14 filmes. Em outros momentos, a atuação passou pela produção de materiais educativos e audiovisuais. A AAB desenvolveu uma cartilha e um documentário sobre educação antinuclear, além de encontros voltados a estudantes, professores, pesquisadores e movimentos sociais.

A comunicação também se tornou uma frente de incidência. O projeto de criação de uma Rede de Comunicação Social da AAB contribuiu para ampliar a presença da articulação nas redes digitais e fazer com que conteúdos sobre a questão nuclear chegassem a públicos mais amplos.

Para uma organização que atua em torno de um tema técnico, controverso e frequentemente distante do cotidiano da maior parte da população, produzir e distribuir informação não é uma atividade secundária. É uma forma de disputar o próprio debate público.

A AAB define entre suas estratégias a produção de materiais informativos, vídeos, cartilhas, campanhas, seminários e rodas de diálogo nos locais onde existem ou estão planejadas instalações nucleares. “Com o apoio do Fundo Casa, avançamos em tornar a sociedade mais consciente sobre a tecnologia nuclear e seus riscos”, afirma Zoraide.

O que permanece depois do projeto

É possível medir parte dos resultados de um projeto pelo que ele entrega: um documentário produzido, uma atividade realizada, uma publicação lançada. Mas os efeitos de um apoio podem aparecer também naquilo que continua funcionando depois que o projeto termina.

Uma rede de comunicação permanece; um grupo formado durante um processo de educação pode seguir atuando; pesquisadores e organizações que se aproximaram podem continuar trocando informações; um documentário pode ser levado para uma escola anos depois de sua produção; uma articulação construída entre territórios pode ser mobilizada diante de uma nova decisão pública. Essa continuidade também ajuda a explicar a trajetória da AAB.

Ao longo de diferentes projetos apoiados, a organização passou por momentos de fortalecimento. Em uma das iniciativas, por exemplo, a avaliação do projeto registrou que a articulação começou com seis facilitadores e terminou com 12 pessoas atuando em diferentes regiões do país, além de ampliar sua aproximação com grupos ligados à justiça ambiental, mineração e saúde.

Essa trajetória também aparece na experiência de pessoas que passaram a atuar nesses projetos e levaram o aprendizado para outras frentes da luta antinuclear.

Maria Clara Valverde Sevalho, que hoje atua no grupo de apoio à coordenação da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPÊ), coordenou em 2017 o Recultura, projeto realizado pela organização em parceria com a Organização dos Caiçaras e Amigos (OCA), com apoio de R$ 20 mil do Fundo Casa. No Frade, em Angra dos Reis, a iniciativa partiu de uma característica particular do território: o bairro está dentro da Zona de Planejamento de Emergência de 5 quilômetros da central nuclear. A proposta foi fortalecer a cultura caiçara em diálogo com a realidade do risco nuclear.

O projeto produziu o curta-documentário Recultura Caiçara, com depoimentos de moradores antigos sobre as histórias e lendas da comunidade e as transformações provocadas pela construção da Rio-Santos e das usinas. Também levou o debate para as escolas, com oficinas de ativismo socioambiental que reuniram 181 estudantes de duas escolas públicas do bairro.

Dona Belzinha durante entrevista para o documentário Recultura, em Angra dos Reis (RJ), em 2017.

Para Maria Clara, aquele projeto foi um ponto de partida para uma atuação mais estruturada na agenda antinuclear. “Foi através dos recursos do Fundo Casa que a minha carreira como ativista antinuclear, no sentido profissional, de estar fazendo projetos, participando dos projetos, trabalhando de uma forma coordenada, começou”, conta.

O percurso ajuda a materializar uma dimensão do financiamento direto que não aparece necessariamente na prestação de contas de um projeto: os conhecimentos, as relações e a experiência acumulada podem continuar sendo mobilizados depois que a iniciativa termina.

Para Zoraide, o financiamento direto é especialmente relevante porque permite que organizações que vivem os conflitos nos territórios tenham condições materiais para desenvolver sua própria atuação: “É necessário que as instituições financiadoras reflitam sobre a importância de financiar diretamente as entidades que vivem os conflitos nos territórios”.

A lógica, nesse caso, é diferente de financiar apenas uma ação pontual. O apoio cria condições para que a própria organização defina suas prioridades, qualifique sua atuação e desenvolva ferramentas para lidar com problemas que muitas vezes permanecem durante anos.

Isso é particularmente importante em conflitos relacionados a grandes empreendimentos. Enquanto decisões sobre obras, licenciamento, financiamento e política energética podem levar anos, organizações locais precisam manter sua capacidade de acompanhar processos, informar suas comunidades e construir articulações.

Uma agenda que permanece atual

Manifestação contra Angra 3 durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 2002. A oposição ao empreendimento acompanha diferentes momentos de sua história, da interrupção das obras às tentativas de retomada. Acervo SAPÊ.

A agenda nuclear brasileira está longe de ser encerrada. Angra 3 permanece no centro de decisões sobre recursos públicos, tarifa de energia e continuidade das obras. Ao mesmo tempo, outros pontos do ciclo nuclear continuam mobilizando organizações e comunidades. A AAB mantém articulações em regiões onde existem atividades de mineração, instalações nucleares ou propostas relacionadas à expansão do setor.

É nesse cenário que a rede está entrando em uma nova etapa. Um projeto recente de expansão da articulação antinuclear no Nordeste prevê fortalecer a presença da AAB na região e aproximar organizações e ativistas dos territórios. O apoio também tornou possível, neste ano, a realização de um encontro nacional que vinha sendo planejado havia cerca de quatro anos. A atividade reuniu pessoas envolvidas com a agenda antinuclear para discutir as próximas ações e construir agendas comuns.

Para Zoraide, a realização do encontro só foi possível com o apoio financeiro e técnico recebido pelo projeto.

O financiamento socioambiental apoia ações no presente e dá condições para que a sociedade civil organizada continue atuando a médio e longo prazo. Isso porque uma usina pode ser planejada para operar por décadas. Uma mina pode transformar a relação de uma comunidade com seu território. Ou seja, as decisões tomadas hoje podem produzir consequências por muito tempo em diversos territórios.

É nesse horizonte que a atuação de uma rede como a AAB ganha sentido, com a capacidade de permanecer mobilizada, produzir conhecimento e disputar os rumos de decisões que ultrapassam o tempo de um projeto, de um governo ou de uma obra. Também é nesse horizonte que o financiamento climático reafirma sua importância, ao possibilitar o fortalecimento de agendas que asseguram a justiça socioambiental.

 

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