22.10.2026
Antes do crédito, a escuta: em Brasília, organizações rurais dialogam sobre o caminho para que o Pronaf chegue a quem tem direito
Em sua primeira chamada dedicada ao crédito rural, o Fundo Casa Socioambiental reuniu, em Brasília, as 30 organizações apoiadas, o governo federal, bancos e financiadores. A aposta é construir o caminho até o Pronaf a partir de quem conhece o território.
O Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), do governo federal, existe para apoiar agricultores e agricultoras familiares a produzir e a seguir vivendo da terra e neste ano, conta com R$ 85,2 bilhões investidos nessas ações. Ainda assim, muitas famílias que têm direito ao crédito não conseguem acessá-lo, seja por falta de documentos, de assistência técnica ou de informação sobre como fazer o pedido. Para entender onde estão essas barreiras e como superá-las, 30 organizações de 13 estados se reuniram com o Fundo Casa Socioambiental em Brasília (DF), entre os dias 19 e 21 de outubro.
O encontro reuniu as organizações apoiadas pela chamada Crédito Comunitário Sustentável, que busca ampliar o acesso de agricultores e agricultoras familiares ao crédito rural por meio do fortalecimento de organizações comunitárias. Em duas décadas de apoio direto a comunidades e organizações de base, esta é a primeira chamada do Fundo Casa dedicada inteiramente a esse tema. O ponto de partida foi a escuta. Antes de qualquer definição, as organizações foram convidadas a contar o que dificulta o acesso no território, e os próximos passos passam a ser construídos a partir do que elas trouxeram.
“Quando falamos em crédito, é comum pensar só na última etapa, que é o dinheiro chegando às mãos do agricultor. Mas, para muitos, existe um percurso anterior”, resume Matheus Monteiro, Gestor de Programas do Fundo Casa. Esse percurso inclui a regularização de documentos, a assistência técnica, o planejamento da produção e a comercialização. “São etapas que definem se uma família conseguirá ou não acessar e fazer bom uso do recurso”, complementa.
Como a filantropia pode abrir caminhos até o crédito que já existe
A ideia nasceu de uma provocação. Há cerca de dois anos, a Porticus, fundação filantrópica internacional e uma das financiadoras da chamada, chamou atenção para uma lacuna. O Fundo Casa apoiava toda a cadeia produtiva das comunidades, mas não atuava no crédito. “Nesses 20 anos, nós nunca tínhamos atuado na área de crédito. Nunca pensamos em ser um agente financeiro”, conta Rodrigo Moreira, Coordenador de Operações Institucionais do Fundo Casa. “Mas percebemos que no crédito existia um gargalo que poderia se juntar à filantropia, que é a nossa área de atuação.”
A partir dessa provocação, o projeto começou a ganhar forma com a participação de outra parceira, a Fundação Arymax, fundação familiar brasileira que apoia iniciativas de inclusão produtiva. Ela fez parte desse processo e da construção do projeto de apoio às organizações comunitárias.
O gargalo de que fala Rodrigo Moreira está no acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a principal política de crédito rural voltada à agricultura familiar no país. Lançado em junho pelo governo federal, o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 ampliou em cerca de 9% os recursos do programa e reduziu os juros, que agora vão de 0,5% a 7,5% ao ano. As condições melhoraram, mas as barreiras de acesso têm raízes mais profundas, ligadas a desigualdades históricas e à distância entre as políticas públicas e a realidade de quem vive no campo.
Por isso o Fundo Casa decidiu fortalecer as organizações que caminham ao lado das famílias agricultoras, para que acessem a política pública. São elas que conhecem cada território, sabem onde o processo trava e têm a confiança das comunidades para ajudá-las a percorrer esse caminho. “Estruturamos uma forma de apoiar organizações que trabalham com agricultores, para que elas atuem na questão do crédito e os agricultores acessem as linhas que já existem para a agricultura familiar”, explica Rodrigo Moreira. “Acho que essa é a principal função do Fundo Casa: diminuir a burocracia. É para isso que a gente existe.”
A chamada Crédito Comunitário Sustentável recebeu 445 propostas. Trinta foram selecionadas, com apoio de até R$ 100 mil cada, somando cerca de R$ 3 milhões. A iniciativa conta com financiamento da Fundação Arymax, da Porticus e de MacKenzie Scott (Yield Giving).
As vozes dos territórios no centro das decisões sobre o crédito rural
Durante o encontro, as próprias organizações desenharam o caminho até o crédito. Mapearam as etapas e os atores envolvidos, os avanços já conquistados e os pontos em que o processo costuma travar. É a partir desse mapeamento que serão definidos o plano de ação e a jornada de formação da chamada.
No centro do modelo está o articulador regional. Cada organização indicou uma pessoa para acompanhar, caso a caso, até 20 agricultores e agricultoras. É ela quem faz o diagnóstico das famílias, monta as propostas, dialoga com os bancos e traz as dúvidas do território. “É uma figura central nesse processo”, define Matheus Monteiro.
A quilombola Solange Jesus dos Santos é uma dessas articuladoras. Pela Associação das Famílias Quilombolas de Terra da Lua, ela acompanha 20 famílias. “Viemos buscar conhecimento para destravar esse processo burocrático e conseguir acessar as políticas públicas dentro do nosso quilombo”, conta.
Para as famílias quilombolas que ela acompanha, o maior obstáculo é a documentação. No encontro, a conversa com a equipe do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) ajudou a esclarecer dúvidas que travavam os pedidos no banco. A troca com articuladores de outras regiões também rendeu novos contatos e experiências para levar à comunidade.
Para Solange, o que está em jogo é o futuro de quem vive ali. “Quando a gente consegue um crédito para investir dentro da própria comunidade, a pessoa gera emprego e renda no seu próprio lugar, sem precisar sair”, destaca.
Conectando organizações locais, instituições financeiras e governo a partir da escuta
Esse tipo de encontro ainda é raro. Em geral, as organizações de base têm pouco espaço para dialogar diretamente com bancos e com o governo federal sobre as dificuldades que enfrentam. O encontro reuniu, num mesmo espaço, quem formula a política de crédito, quem opera, os financiamentos, e quem tenta acessá-los no dia a dia. Em uma mesa de diálogo com representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), do Banco do Brasil, da CAIXA e da Conexsus, os articuladores puderam apresentar suas dúvidas diretamente a quem toma decisões.
Para Elvânia Guimarães, coordenadora de crédito rural do MDA, a informação é o que faz a diferença. “Por isso a gente faz questão de participar desses eventos, de estar em contato com o agricultor e mostrar como ele pode contornar as dificuldades”, afirma. “A gente precisa ajudar o produtor a conhecer esse crédito, porque é o melhor para o agricultor familiar.”
Débora Cassol, da Diretoria de Sustentabilidade do Banco do Brasil, conta que o banco tem buscado se aproximar das associações e dos empreendimentos comunitários, e que o encontro permitiu apresentar essa estratégia a um público maior. “Esse tipo de parceria faz com que as políticas públicas e as estratégias do governo e do próprio banco consigam alcançar quem é de direito. É imprescindível esse tipo de articulação.”
Para a Fundação Arymax, esse é justamente o ponto. “O objetivo é chegar onde o crédito público não chega e ouvir de fato quem está na ponta”, diz Gustavo de Oliveira, gerente de programas e impacto da fundação. “O Fundo Casa faz esse apoio muito bem, pois tem capilaridade e capacidade de convocação para o país todo.”
Da escuta aos dados: o que vem agora
Com os 30 articuladores regionais acompanhando até 20 famílias cada, até 600 famílias agricultoras devem receber assessoria para acessar o Pronaf. Entre dezembro de 2026 e setembro de 2027, elas e as organizações passarão por uma jornada de formação e acompanhamento, construída a partir das prioridades apontadas no encontro.
O aprendizado não fica restrito aos projetos. Tudo o que for mapeado nesse percurso vai virar dado, e esses dados vão ajudar a dar continuidade ao diálogo iniciado no encontro. O Fundo Casa pretende lançar uma cartilha sobre crédito rural, que vai funcionar como guia de boas práticas a partir da escuta feita no encontro. Mais adiante, a experiência da chamada também deve dar origem a um policy brief, com recomendações a bancos, ao MDA e a todo o campo.
“Já percebemos que existem muitas diferenças entre as regiões e entre os bancos”, observa Rodrigo Moreira. “A ideia é ter, ao final, um documento que mostre como o crédito está chegando na ponta e quais são os principais gargalos que os agricultores enfrentam para adquiri-lo”. Ele resume o papel que o Fundo Casa nesse processo: “Estamos fazendo um meio de campo para que a conversa exista entre os dois lados e para diminuir ruídos, dificuldades e burocracia”.
Para a filantropia, o recado é que escutar o território também é estratégia. Matheus sintetiza: “estamos aprendendo com organizações que conhecem as barreiras enfrentadas pelos agricultores. Ampliar o acesso ao crédito também passa por reconhecer e fortalecer quem ajuda a tornar esse caminho possível.”

Articuladoras e articuladores das organizações apoiadas pela chamada Crédito Comunitário Sustentável encerram o encontro com certificado em mãos e com o compromisso de levar o que construíram juntos de volta aos seus territórios. Foto: Lanterna LAB
