24.09.2026

As águas que se encontram para fortalecer os territórios da Pan-Amazônia

Em Manaus, fundos de diferentes países e trajetórias se reuniram para fortalecer conexões, compartilhar experiências e construir novas formas de fazer recursos chegarem diretamente às comunidades da Pan-Amazônia

Cuias cheias de água circulavam entre as mãos dos participantes do encontro. Cada pessoa havia levado um pouco do seu território para Manaus: água de rios próximos de suas comunidades, de lugares onde vivem povos e organizações que, há gerações, cuidam da floresta, defendem seus modos de vida e constroem respostas para os desafios que enfrentam. Naquele momento simbólico, diferentes partes da Pan-Amazônia começavam a se encontrar.

As águas foram despejadas em uma panela tradicional, feita de barro, também carregada de significado. A terra que alimenta, onde se planta e se constrói, agora recebia as águas dos rios trazidos pelos participantes. Um gesto de conexão para abrir três dias de conversas sobre como aproximar fundos, financiadores e organizações comunitárias e fazer mais recursos chegarem a quem está nos territórios.

A mística proposta por Angelo Ricardo Chaves, gestor de programas do Fundo Casa Socioambiental, abriu o Criando Pontes na Pan-Amazônia — Encontro dos Fundos Parceiros, realizado em Manaus entre 14 e 16 de setembro. Cerca de 50 representantes de 22 fundos de diferentes países da região se reuniram para compartilhar experiências, discutir os desafios do financiamento direto e construir novas formas de colaboração entre quem mobiliza recursos e quem conhece, no cotidiano, as necessidades das comunidades.

A escolha da água não foi por acaso. Em Manaus, o encontro entre o Rio Negro e o Solimões é uma das imagens mais conhecidas da força dos rios amazônicos. Eles percorrem caminhos diferentes, carregam características próprias e seguem lado a lado até formarem o Rio Amazonas. Para Angelo, a cena também traduzia o que aqueles fundos buscavam construir juntos.

“Essa mística da mistura, do encontro, da convergência das águas, representa a força dos territórios. Vem de um país, passa por vários estados, por vários territórios. Representa a navegação, representa a união dos povos, representa a força dos territórios”, explica.

Na panela de barro, as águas já não podiam ser separadas, mas cada uma continuava carregando a história do lugar de onde veio. Era essa diversidade, reunida sem ser apagada, que os participantes levariam para as conversas dos dias seguintes.

Cada água traz uma história

Foto: Attilio Zolin

Entre as experiências reunidas estavam fundos comunitários criados a partir de movimentos sociais, fundos indígenas, organizações socioambientais, fundos de direitos humanos e iniciativas voltadas a diferentes grupos e territórios. Alguns têm décadas de atuação; outros ainda estão construindo suas trajetórias.

A imagem dos rios voltou a aparecer quando os participantes deixaram a sala de reuniões para conhecer outro encontro: o do Rio Negro com o Solimões. Maria Amalia Souza, fundadora e diretora de Estratégias Globais em Filantropia do Fundo Casa Socioambiental, observou os dois rios e encontrou ali uma lição para os próprios fundos.

“Esses rios não são iguais. Eles têm velocidades diferentes, temperaturas diferentes, e vão se mesclando pelo caminho. Eu acho que a grande lição é essa: a gente não é igual. Cada fundo cumpre uma função dentro desse grande ecossistema, mas todos nós formamos um grande e poderoso rio de proteção da maior floresta tropical do mundo”, afirmou.

Para Juan Camilo Mira, coordenador-executivo do Fondo Emerger, essa diversidade é uma das riquezas do encontro. “As três redes presentes em Manaus têm origens diferentes, atuam em países e regiões distintas e foram construídas a partir de trajetórias próprias. Ainda assim, compartilham uma visão sobre a necessidade de mobilizar mais recursos e poder para as organizações comunitárias nos territórios.”

De onde vem o conhecimento sobre o território

As diferenças também aparecem na relação que cada fundo mantém com os territórios e com o próprio financiamento direto. Na Rede de Fundos Comunitários da Amazônia, os nove fundos que integram a articulação foram criados por movimentos sociais que já atuavam nesses lugares. As lideranças que passam a trabalhar nos fundos levam consigo essa experiência, o conhecimento sobre as comunidades e as demandas de cada região.

Ellen Pereira, representante da rede, explica que essa proximidade influencia diretamente a forma como os recursos são aplicados. Os fundos conhecem as demandas, sabem onde estão as organizações e conseguem apoiar soluções que já vêm sendo construídas pelas próprias comunidades.

“O fluxo do dinheiro, do recurso que é captado, é muito mais rápido e muito mais eficiente, porque os fundos estão inseridos no território”, afirma Ellen.

Para Ellen, aproximar essas experiências pode ajudar os fundos não apenas a ampliar o acesso a recursos, mas também a influenciar a maneira como o próprio sistema de financiamento funciona. “Como é que a gente se fortalece conjuntamente para ter acesso a esses recursos aos territórios, mas também influenciar esse sistema de financiamento?”, questionou.

Para Maria Amalia Souza, essa articulação só ganha sentido quando amplia a capacidade das próprias comunidades de conduzirem as soluções construídas em seus territórios. “Meia dúzia de projetos aqui não vai fazer diferença”, afirma. “Vai fazer diferença quando todas essas comunidades, em todos os países da Pan-Amazônia, tenham acesso a recursos para serem os protagonistas das suas próprias soluções”, destaca.

Fazer o recurso chegar é parte da transformação

A discussão sobre financiamento direto ocupou um lugar central nos três dias. Os participantes discutiram de onde vêm os recursos, quais barreiras ainda dificultam seu acesso e como aproximá-los das comunidades que atuam diretamente na proteção dos territórios.

Os fundos comunitários ocupam uma posição particular nesse caminho. Conhecem as demandas locais, têm relações construídas com organizações comunitárias e, ao mesmo tempo, acumulam experiência para dialogar com diferentes tipos de apoiadores. Para Ellen, isso permite que os recursos sejam adaptados às necessidades concretas de cada lugar, “para que o recurso, o apoio venha para os territórios, mas transformado, modificado, e adaptado para a realidade que a gente vivencia aqui”.

O debate mostrou que o financiamento direto não significa apenas reduzir intermediários. Trata-se também de aproximar as decisões sobre o uso dos recursos de quem conhece os problemas, as relações e as soluções que já existem nas comunidades.

Para Maria Amalia, um dos pontos de partida é construir confiança entre os diferentes atores. “Conhecer e construir mais confiança entre todos os atores pode,  no final, fazer uma grande diferença, que é priorizar a chegada de recursos nas mãos das comunidades, das pessoas que estão há décadas, há séculos, há milênios, protegendo esse lugar.”

Essa construção também aparece na fala de Eduardo Franco Berton, diretor fundador da Fundación Socioambiental Semilla, da Bolívia. Para ele, os fundos compartilham a mesma Pan-Amazônia, mas enfrentam realidades diferentes.

“O encontro das águas, eu acho que metaforicamente tem um valor muito forte para o que estamos fazendo aqui”, afirma Eduardo. “Estar aqui também é um exemplo para que entre os fundos nos conheçamos, nos unamos mais para poder ter mais força para atuar nos nossos territórios.”

Uma aliança que amplia o campo

As conexões construídas no encontro, em Manaus, também apontam para desafios que ultrapassam a atuação de cada fundo. Ao compartilhar experiências, os participantes falaram sobre as barreiras que as organizações comunitárias ainda encontram para acessar financiamento e sustentar seu trabalho.

Para Jonathas Azevedo, coordenador da Rede Comuá, encontros como este ajudam a pensar novas formas de articulação para além das estruturas existentes. “Espaços como este, de fortalecimento de redes e de alianças, são fundamentais não só como estratégia de resistência, mas também de articulação política e de pensar outros caminhos, outras estruturas possíveis para a filantropia e para o campo do financiamento, para a luta social como um todo.”

Juan Camilo Mira vê na Casa Sul Global um caminho para aproximar redes e aprofundar essas relações. “É uma maneira muito linda de ampliar o panorama da aliança com o Sul Global, de estreitar a relação com a Rede Comuá e com a Rede de Fundos Comunitários da Amazônia. Isso nos diversifica, amplia nossas perspectivas e nos abre portas para discussões e aprendizagens muito interessantes.”

A expectativa, a partir dessas trocas, é que diferentes experiências continuem circulando e possam se transformar em ações conjuntas. Trata-se de somar forças para participar das discussões e influenciar os caminhos que definem como os recursos chegam às comunidades.

O rio continua depois do encontro

As diferentes trajetórias que se encontraram, não precisam se tornar iguais para seguir juntas. Cada fundo leva consigo a história e os aprendizados de seu território, mas também novas conexões, possibilidades de parceria e disposição para construir caminhos em comum.

Para Angelo Ricardo, essa expectativa está ligada à sua própria trajetória. Originário de uma Reserva Extrativista e há anos trabalhando com comunidades ribeirinhas, extrativistas e agricultores familiares no Pará e no Amazonas, ele conhece de perto as realidades que os fundos procuram apoiar. “Nós estamos nos territórios, conhecemos a realidade, sabemos como fazer a transformação acontecer, porque estamos em conexão com os territórios, com as organizações, com os povos”, afirma.

É desse lugar de pertencimento que ele olha para o que pode vir depois desse encontro. “Eu espero muitas conexões, uma grande união, uma grande rede de parceiros, de pessoas que possam se unir para transformar as realidades e fazer os apoios necessários para as comunidades.”

O rio segue seu caminho. Águas que chegam de diferentes lugares se encontram, compartilham o percurso e depois seguem adiante, cada uma carregando sua própria história, mas sabendo que não estão sozinhas.

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