04.11.2026
Estudo inédito do Fundo Casa mostra que a sociobioeconomia comunitária transforma realidades e precisa de financiamento direto para crescer
Publicação analisa os 405 projetos apoiados pela Teia da Sociobiodiversidade, que destinou R$ 40 milhões a organizações em todos os estados do país.
Associações indígenas, quilombolas, cooperativas de agricultura familiar, extrativistas, pescadoras e pescadores artesanais já produzem, conservam e geram renda em todos os biomas do Brasil. O que falta, na maior parte dos casos, não é conhecimento nem organização: é uma cozinha comunitária equipada, um poço para irrigação, um equipamento de beneficiamento, capital de giro, regularização documental e/ou sanitária.
Essa é a principal conclusão de Teia da Sociobiodiversidade – Investimentos estruturantes na base da sociobioeconomia brasileira, publicação que o Fundo Casa Socioambiental lança agora. O estudo analisa o portfólio da Teia da Sociobiodiversidade, iniciativa realizada em parceria com o Fundo Socioambiental CAIXA (FSA CAIXA), e traça um retrato de quem faz a sociobioeconomia comunitária no país, onde está, o que produz e do que precisa.
“A sociobioeconomia brasileira não está esperando para ser criada. Ela já existe: produz e conserva, gera renda, alimenta comunidades e movimenta mercados locais”, afirma a diretora-executiva do Fundo Casa, Cristina Orphêo.
R$ 40 milhões em todo o Brasil e uma demanda dez vezes maior
Em duas chamadas públicas, a Teia da Sociobiodiversidade destinou R$ 40 milhões em apoio direto a 405 projetos, com até R$ 100 mil por iniciativa. Os recursos chegaram às 27 unidades da federação e a 316 municípios, cerca de 6% dos municípios brasileiros.
É o maior apoio financeiro já realizado pelo FSA CAIXA e o maior recurso não reembolsável já recebido na história do Fundo Casa, que desde 2005 realizou mais de 4,8 mil apoios a organizações comunitárias.
Para Cristina Orphêo, “o apoio direto não deve ser entendido como um recurso pequeno para uma iniciativa pequena. Ele é investimento estruturante na base da economia dos territórios”, escreve.
As duas chamadas receberam 3.860 propostas. Apenas uma em cada dez pôde ser apoiada. Para o Fundo Casa, os mais de 3,4 mil projetos que ficaram de fora não revelam falta de iniciativa, e sim, que mais recursos precisam estar disponíveis para financiar projetos nos territórios. “O desafio não é encontrar iniciativas ou organizações capazes de fazer. Elas já existem, estão mobilizadas e sabem o que precisam. O desafio é fazer o financiamento chegar na escala necessária”, afirma a diretora-executiva. “Essa talvez seja uma das mensagens políticas mais importantes deste estudo.”
Quem faz a Teia: : mulheres, povos tradicionais e organizações do próprio território
A publicação apresenta um retrato de quem está por trás da sociobioeconomia comunitária no Brasil. Em nove de cada dez projetos, quem recebe o recurso é do próprio território, movimentando as economias locais. A maioria das organizações é liderada por mulheres (55,1%), o que revela o protagonismo das mulheres nessas iniciativas.
O estudo também mostra que boa parte dessas iniciativas resiste em territórios sob pressão do agronegócio, de grandes obras, da mineração e de empreendimentos de energia, e revela como essas pressões mudam de um bioma para outro.
Essas organizações já produzem e vendem. Mais da metade já fornece alimentos para a merenda escolar ou para programas públicos de compra, e quase todas as demais querem chegar lá. O que falta, aponta o estudo, é o passo seguinte: as condições para que essas infraestruturas se consolidem e gerem renda de forma contínua. A publicação detalha quais são esses gargalos, onde eles aparecem e o que as próprias comunidades propõem para superá-los.
Cinco estudos de caso mostram, na prática, o que o apoio direto torna possível nos territórios. Na Ilha do Marajó (PA), uma cooperativa recupera áreas degradadas com agroflorestas. No Quilombo Kalunga (GO), uma agroindústria parada há anos volta a funcionar. Na Terra Indígena Kambiwá (PE), mulheres conquistam a cozinha comunitária que buscavam há tempos. Completam o retrato, jovens agricultores do Rio Grande do Sul, em ações de permanência e geração de renda, assim como de maricultores de Arraial do Cabo (RJ), que encontraram nas algas uma nova fonte de renda.
Financiar quem já faz: o caminho para a sociobioeconomia ganhar escala

Foto: Ahmad Jarrah
Há recursos significativos sendo mobilizados para clima, biodiversidade e sociobioeconomia. A Teia revela as transformações que acontecem com as economias locais quando esse dinheiro chega, de fato, às mãos de quem protege os territórios, bem como mostra quais são os gargalos para isso A experiência das duas chamadas destaca que é possível fazer os recursos chegarem a centenas de organizações ao mesmo tempo, quando existe uma ponte entre quem financia e quem está na ponta.
Para que a sociobioeconomia ganhe escala, o estudo propõe caminhos para filantropia, bancos públicos e investidores de impacto, com recursos mais flexíveis, mais próximos e adaptados ao tempo das comunidades.
“Se queremos uma nova economia capaz de conservar a biodiversidade, enfrentar a crise climática, produzir alimentos, gerar renda e manter valor nos territórios, precisamos financiar quem já realiza esse trabalho todos os dias”, afirma Cristina Orphêo, diretora-executiva do Fundo Casa.
