14.08.2026
Juventudes que transformam territórios inspiram publicação inédita sobre financiamento climático lançada na São Paulo Climate Week
Nova publicação produzida por Regilon Matos, a partir da experiência do Fundo Casa Socioambiental, reúne dados, histórias e aprendizados que mostram como a filantropia comunitária fortalece jovens lideranças e amplia soluções para a justiça climática em todo o Brasil.
Antes de se tornar uma publicação, esta história começou com uma escuta.
Em 2023, durante a COP 28, em Dubai, jovens e representantes de diferentes comunidades tradicionais e locais compartilharam uma inquietação comum. Embora estivessem na linha de frente da proteção dos territórios e da construção de soluções para a crise climática, continuavam encontrando enormes dificuldades para acessar recursos que fortalecessem seu trabalho.
As barreiras iam muito além da falta de dinheiro. Editais complexos, excesso de burocracia, exigências incompatíveis com a realidade das organizações comunitárias, pouca flexibilidade dos financiamentos e a dificuldade de acessar redes de apoio eram alguns dos desafios apontados por quem vive diariamente os impactos das mudanças climáticas e ao mesmo tempo, constrói respostas concretas para enfrentá-las.
O Fundo Casa Socioambiental decidiu transformar a escuta em ação. Daquele diálogo nasceu uma chamada pública inédita voltada exclusivamente para juventudes tradicionais e periféricas, fortalecendo iniciativas de comunicação comunitária, educação ambiental, incidência política e fortalecimento institucional em diferentes regiões do país. E, agora, nasce também uma publicação que reúne essa trajetória, sistematiza aprendizados e convida financiadores, organizações e movimentos sociais a repensarem a forma como o financiamento climático chega aos territórios.
É essa a proposta de Juventudes tradicionais e periféricas acessando financiamento – O trabalho da filantropia comunitária e de justiça socioambiental a partir das experiências do Fundo Casa, publicação escrita por Regilon Matos, no âmbito do Programa Saberes, da Rede Comuá, lançada durante a São Paulo Climate Week no dia 7 de agosto.
“A principal mensagem desta publicação é que o financiamento climático ainda parte do princípio de que as soluções precisam ser criadas. A experiência do Fundo Casa mostra justamente o contrário. Os dados desses últimos cinco anos revelam que essas soluções já existem e são sustentadas, muitas vezes, por organizações de juventudes de comunidades tradicionais e periféricas que atuam em condições bastante precárias. O que precisa mudar não são essas juventudes, mas o desenho do financiamento, para que mais recursos cheguem diretamente a essas organizações.”
Regilon Matos, autor da publicação e gestor de programas do Fundo Casa
O estudo conta uma experiência construída coletivamente e mostra como ouvir quem vive os desafios cotidianos pode transformar estratégias de apoio, fortalecer organizações de base e produzir conhecimento capaz de inspirar novas formas de fazer filantropia.
Quando o território produz conhecimento
Durante muitos anos, o debate sobre financiamento climático foi conduzido principalmente por grandes instituições, governos e organizações internacionais. Ao mesmo tempo, milhares de jovens seguiam mobilizando suas comunidades, recuperando nascentes, protegendo florestas, fortalecendo a agroecologia, produzindo comunicação popular, preservando conhecimentos ancestrais e articulando respostas para problemas que já fazem parte de sua realidade.
Essas experiências nem sempre aparecem nos grandes relatórios sobre clima, mas elas existem e transformam vidas todos os dias. A publicação parte justamente dessa constatação: os territórios não produzem apenas soluções, produzem conhecimento.
Ao sistematizar a experiência do Fundo Casa com organizações lideradas por jovens, Regilon Matos demonstra que as juventudes tradicionais e periféricas não devem ser vistas apenas como beneficiárias de políticas públicas ou de projetos financiados. Elas são protagonistas da construção de respostas para a crise climática, da defesa dos direitos humanos e da proteção da sociobiodiversidade brasileira.
Ao longo de mais de duas décadas, o Fundo Casa construiu a convicção de que as soluções mais consistentes para os desafios socioambientais nascem onde os problemas são vividos. É por isso que sua atuação sempre esteve voltada ao apoio direto às organizações comunitárias, fortalecendo capacidades institucionais, promovendo autonomia e construindo relações baseadas na confiança.
Os números ajudam a dimensionar o alcance dessa estratégia. Entre 2020 e 2025, mesmo sem lançar editais exclusivos para esse público durante boa parte do período, cerca de 30% dos projetos apoiados pelo Fundo Casa foram liderados por jovens entre 18 e 29 anos.
O dado ganha ainda mais relevância quando comparado ao cenário global. Um estudo do Youth Climate Justice Fund, em parceria com a ClimateWorks Foundation, revelou que apenas 0,96% do financiamento climático mundial chega a organizações lideradas por juventudes. No mesmo intervalo analisado pelo levantamento internacional, entre 2022 e 2024, o Fundo Casa destinou R$ 6,59 milhões diretamente a iniciativas lideradas por jovens. Convertido para dólar, esse valor representa cerca de US$ 1,3 milhão — aproximadamente 1,5% de todo o volume global identificado pelo estudo, estimado em US$ 85,9 milhões.
Os dados mostram que ampliar o acesso ao financiamento depende de escolhas institucionais: apoiar organizações de base, simplificar processos e confiar na capacidade das juventudes de liderar transformações em seus territórios.
Mas os números contam apenas parte da história. A pesquisa mostra que o maior desafio não é transformar a forma como esses recursos circulam. Quando o financiamento reconhece as especificidades dos territórios, simplifica processos, apoia o fortalecimento institucional e estabelece relações de confiança, organizações comunitárias conseguem ampliar seu impacto, fortalecer redes locais e produzir mudanças duradouras.
Da escuta à ação

Foto: Regilon Matos – Escuta com a juventude brasileira na COP 28, em Dubai
A conversa realizada durante a COP 28 marcou um ponto de inflexão nessa trajetória. Ao ouvir jovens de diferentes regiões do país, o Fundo Casa compreendeu que era preciso construir uma iniciativa pensada junto com eles, e não apenas para eles. O resultado foi uma chamada pública inédita voltada exclusivamente para juventudes tradicionais e periféricas.
Lançada em 2024, a iniciativa destinou R$ 1,75 milhão para apoiar 35 organizações em todas as regiões do Brasil, estruturando o apoio em quatro eixos definidos a partir das demandas apresentadas pelos próprios participantes: fortalecimento institucional, comunicação comunitária, incidência e trabalho em rede, além de educação ambiental. Essa experiência tornou-se um dos principais objetos de análise da publicação.
Ao acompanhar as iniciativas apoiadas, o estudo demonstra que investir em juventudes significa fortalecer processos coletivos, ampliar capacidades organizativas e criar condições para que soluções locais se tornem referências para outros territórios.
Histórias que mostram o poder do apoio direto
Ao longo da publicação, diferentes experiências ilustram como o fortalecimento institucional pode gerar impactos concretos.

Com o projeto Clima de Quebrada, o Instituto Perifa Sustentável fortalece a educação climática em periferias e favelas, mostrando que as juventudes são protagonistas na construção de territórios mais resilientes e justos.
Com o projeto Clima de Quebrada, o Instituto Perifa Sustentável fortalece a educação climática em periferias e favelas, mostrando que as juventudes são protagonistas na construção de territórios mais resilientes e justos.
Na periferia de São Paulo, na Brasilândia, a emergência climática também é uma pauta urgente. Foi dessa compreensão que nasceu o Clima de Quebrada, iniciativa do Instituto Perifa Sustentável. O projeto surgiu para fortalecer o debate sobre mudanças climáticas dentro do território. A resposta veio por meio de ações de educação climática voltadas às periferias, comunidades vulnerabilizadas e favelas, aproximando um tema frequentemente tratado em espaços internacionais da realidade vivida diariamente por quem enfrenta enchentes, ilhas de calor, falta de áreas verdes e outros impactos da crise climática. Assim, o projeto contribui para democratizar o acesso à informação e fortalecer o protagonismo das juventudes periféricas na construção de soluções para seus territórios.
Na Região Metropolitana do Recife (PE), o Coletivo Jovem de Meio Ambiente de Pernambuco (CJPE) transformou debates sobre justiça climática e racismo ambiental em ação coletiva. O apoio recebido permitiu fortalecer atividades de formação com estudantes e culminou na implantação de uma horta comunitária construída pelos próprios jovens, tornando a escola um espaço de educação ambiental, convivência e mobilização social.
Já na zona leste da cidade de São Paulo, a Ciclolog ampliou o uso da comunicação popular como ferramenta de mobilização das juventudes periféricas. Por meio da rádio comunitária, de produções audiovisuais e de processos formativos, a organização fortaleceu o debate sobre mudanças climáticas, mobilidade, direito à cidade e justiça socioambiental, ampliando a participação política de jovens que historicamente encontram poucas oportunidades para ocupar esses espaços.
As histórias são diferentes entre si, mas compartilham um elemento fundamental. Quando encontram apoio adequado, as organizações conseguem ampliar sua atuação sem perder suas raízes, sua autonomia e sua capacidade de responder aos desafios específicos de seus territórios.
Um convite para repensar o financiamento climático
A publicação chega em um momento em que o Brasil ocupa papel central nas discussões internacionais sobre clima, biodiversidade e justiça socioambiental. O estudo convida o campo da filantropia, organizações da sociedade civil, gestores públicos e financiadores a refletir sobre como garantir que os recursos cheguem a quem já constrói soluções para enfrentar a crise climática.
“Esta publicação deixa dois legados. O primeiro é produzir evidências de que essas soluções já existem e de que, nos últimos cinco anos, o Fundo Casa tem apoiado organizações que tornam as respostas aos desafios climáticos mais rápidas e mais eficientes. O segundo é um legado metodológico: a importância de escutar, construir, implementar, gerir e avaliar junto com as juventudes, reconhecendo-as como parte de todo o processo, e não apenas como beneficiárias do financiamento.”
Regilon Matos, autor da publicação e gestor de programas do Fundo Casa
Ao reunir dados, análises e experiências concretas, a publicação demonstra que apoiar juventudes é muito mais do que financiar projetos. É fortalecer organizações comunitárias, reconhecer conhecimentos produzidos nos territórios. É ampliar vozes historicamente invisibilizadas e construir relações de confiança.
E é apostar que as respostas mais potentes para os desafios do presente já estão sendo construídas por jovens que, todos os dias, transformam seus territórios em espaços de cuidado, resistência e futuro.
