06.07.2026

Sob os linhões, um território atravessado: o que o Sítio Ágatha revela sobre as linhas de transmissão no Brasil

por Lucas Duarte Matos

Em Pernambuco, a experiência do Sítio Ágatha ajuda a entender como a expansão das linhas de transmissão impacta territórios e expõe os desafios de uma transição energética ainda distante de ser justa

No Sítio Ágatha, na zona rural de Tracunhaém (PE), a energia sempre esteve ligada à vida: no plantio, na organização comunitária e na força das mulheres negras agricultoras que sustentam o território.

Mas, nos últimos anos, ela passou a chegar de outra forma, por meio de torres e cabos que atravessam a paisagem e mudam o cotidiano da comunidade.

“As linhas passaram por cima de histórias, memórias, roçados e modos de vida”, afirma Jô Rodrigues, diretora do Sítio Ágatha. “Isso revelou que muitas decisões sobre o território ainda são tomadas longe de quem vive nele.”

As chamadas linhas de transmissão, ou “linhões”, são estruturas responsáveis por levar a energia gerada em grandes empreendimentos até os centros de consumo. Essenciais para o funcionamento do sistema elétrico, elas cruzam longas distâncias e conectam regiões inteiras do país.

A expansão dos linhões acompanha o crescimento acelerado da infraestrutura energética no Brasil. Dados do Ministério de Minas e Energia (2025) mostram que o país já possui mais de 190 mil quilômetros de linhas de transmissão em operação, uma rede que segue em expansão para conectar novos empreendimentos de geração de energia em diferentes regiões do país.  O avanço é impulsionado principalmente pela expansão de grandes projetos de energia eólica e solar, especialmente no Nordeste e no Norte. À medida que novos parques entram em operação, cresce também a necessidade de estruturas capazes de transportar essa energia por longas distâncias até os grandes centros de consumo.

Nos mapas do setor elétrico, essas linhas aparecem como conexões estratégicas para garantir segurança energética. Nos territórios, porém, elas atravessam roçados, florestas, rios e comunidades inteiras, tornando cada vez mais urgente o debate sobre consulta prévia, participação social e salvaguardas socioambientais.

O que parece apenas infraestrutura técnica carrega uma lógica complexa de decisão, implementação e controle, muitas vezes distante das comunidades diretamente afetadas.

“Atualmente, as linhas de transmissão vêm sendo definidas por meio de leilões na bolsa de valores. As empresas arrematam lotes e passam a controlar esses empreendimentos, mas sem qualquer participação das comunidades afetadas nesse processo”, explica Luís Soares, da coordenação de educação e pesquisa do Sítio Ágatha.

Segundo ele, esse modelo já nasce com um distanciamento estrutural. “No processo de leilão não existe participação social, e muitas vezes também não há participação efetiva na implementação. Isso contraria, inclusive, a Convenção 169 da OIT, que garante o direito à consulta prévia de comunidades tradicionais.”

No Sítio Ágatha, a experiência com a linha de transmissão revelou um descompasso entre o que deveria garantir proteção às comunidades e o que, de fato, acontece no território.

“Faltam consultas prévias efetivas, projetos socioambientais consistentes e acompanhamento ao longo do tempo”, afirma Luís Soares. O que chega primeiro são as torres, e com elas, mudanças profundas na dinâmica local. A chamada faixa de servidão, por onde passam os cabos, corta o território e reorganiza a vida ao redor. Áreas produtivas são impactadas, rotinas são alteradas e decisões passam a ser tomadas sem diálogo direto com quem vive ali. 

A realidade vivida no Sítio Ágatha não é isolada. Em diferentes regiões do Brasil, a expansão das linhas de transmissão acompanha o crescimento de grandes empreendimentos energéticos, incluindo fontes renováveis, como a eólica e a solar.

Na Amazônia, essas histórias ganham outra dimensão. Os chamados linhões cruzam centenas de quilômetros de floresta, passando por territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais. Um exemplo recente é a linha Manaus–Boa Vista, o Linhão de Tucuruí, que entrou em operação em 2025. Com mais de 700 quilômetros, ela conecta Roraima ao sistema elétrico nacional e foi apresentada pelo governo como um avanço importante, reduzindo a dependência de energia a diesel.

Mas, assim como no Sítio Ágatha, por onde essas linhas passam também surgem perguntas: quem é ouvido antes da obra começar? Como ficam os impactos no território? E qual é o lugar das comunidades nas decisões?

No fim, a distância entre Pernambuco e a Amazônia diminui quando a experiência se repete. Porque, mesmo em contextos diferentes, o desafio é o mesmo: garantir que a energia que atravessa o país respeite quem vive no caminho.

Onde há apoio, há resposta: o caminho construído pelo Sítio Ágatha

Embora frequentemente associadas à ideia de desenvolvimento sustentável, essas infraestruturas nem sempre garantem uma transição energética verdadeiramente justa. “Elas podem reproduzir antigas formas de desigualdade, especialmente em territórios rurais, negros e tradicionais”, reforça Jô Rodrigues, diretora do projeto. 

Diante desse cenário, o Sítio Ágatha passou a se organizar para compreender e enfrentar os impactos das linhas de transmissão. E é nesse ponto que o apoio a iniciativas comunitárias se torna decisivo.

Com o fortalecimento de seus projetos, incluindo iniciativas apoiadas pelo Fundo Casa Socioambiental e financiadas pela Fundação Mott, a comunidade ampliou sua capacidade de agir sobre a própria realidade. O que antes era apenas impacto passou a ser também registro, análise e incidência política.

“Começamos a registrar os impactos, ouvir os moradores e dialogar com outras comunidades atingidas, também passamos a construir propostas de salvaguardas socioambientais”, conta Jô Rodrigues.

Na prática, isso significa produzir conhecimento a partir do território, fortalecer redes e participar de debates sobre o futuro da política energética no país.

Para Luís Soares, “se a legislação existente fosse cumprida, muitos desses problemas seriam evitados. O que falta é garantir consulta prévia antes mesmo dos leilões, participação no monitoramento e controle social ao longo de todo o processo.”

As chamadas salvaguardas socioambientais surgem, nesse contexto, como instrumentos fundamentais para garantir direitos em grandes empreendimentos. Entre elas estão a consulta livre, prévia e informada, a transparência e a participação efetiva das comunidades nas decisões.

“O território não é apenas área de passagem de energia, é lugar de vida, trabalho, ancestralidade e futuro.”
Jô Rodrigues, diretora do Sítio Ágatha

A expansão das linhas de transmissão no Brasil coloca, cada vez mais, uma questão central: como garantir que a energia que cruza o país não viole os direitos de quem vive nos territórios por onde ela passa? 

No Sítio Ágatha, essa resposta já começou a ser construída, a partir da organização comunitária, da produção de conhecimento e da defesa de que a transição energética só faz sentido se for, de fato, participativa e justa. 



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