04.08.2026

“O céu continua suspenso”: publicação transforma narrativas de organizações indígenas apoiadas pelo Fundo Casa em um poderoso retrato sobre a crise climática

“Quando a gente compartilha o saber, o saber só cresce.” A frase de Antônio Bispo dos Santos, destacada na apresentação da publicação O céu continua suspenso – Saberes indígenas e a continuidade da vida em tempos de crise climática, sintetiza o espírito da pesquisa ao reconhecer que, nos territórios indígenas, existem conhecimentos fundamentais para compreender as mudanças climáticas e inspirar caminhos para a continuidade da vida.

Lançada durante a São Paulo Climate Week 2026, a publicação foi desenvolvida no âmbito do Programa Saberes, da Rede Comuá, e é assinada por Inimá Krenak. A iniciativa nasce de uma experiência singular, em sua atuação de 8 anos como gestora de programas do Fundo Casa Socioambiental. 

“Esta publicação reúne uma leitura construída a partir de centenas de narrativas produzidas por organizações indígenas de todas as regiões do Brasil. Narrativas escritas para apresentar projetos, registrar experiências e prestar contas de seus processos, mas que, quando lidas em conjunto, revelam conhecimentos sobre as transformações do clima, a vida nos territórios e os caminhos que as próprias comunidades vêm construindo para enfrentar esses desafios.”
Inimá Krenak, gestora de programas do Fundo Casa Socioambiental

Ao olhar para esse conjunto de narrativas, Inimá Krenak percebeu que experiências vividas em diferentes tempos e territórios dialogavam entre si. Dessa escuta nasceu uma publicação que transforma projetos e relatórios em uma grande conversa sobre mudanças climáticas, continuidade da vida e os conhecimentos construídos pelos povos indígenas em seus territórios.

A pesquisa foi construída a partir de um conjunto de 727 projetos, desenvolvidos por 402 organizações indígenas, de 182 povos, em aproximadamente 202 Terras Indígenas apoiadas pelo Fundo Casa entre 2018 e 2024. Entre esse material, um dos eixos da análise reuniu 509 relatos sobre as mudanças climáticas escritas pelas próprias organizações.

Quando essas vozes passam a dialogar entre si, emerge um retrato potente do Brasil indígena diante da crise climática. Os relatos falam sobre rios que já não seguem os mesmos ciclos, chuvas que mudaram de ritmo, impactos sobre a produção de alimentos, desafios enfrentados pelas comunidades, mas também sobre os caminhos construídos para continuar sustentando a vida: a proteção dos territórios, a transmissão dos saberes ancestrais, a recuperação de áreas degradadas, o fortalecimento da governança comunitária e o cuidado permanente com a floresta.

O céu continua suspenso é também uma reflexão sobre a potência da escuta. Ao optar por trabalhar com documentos já produzidos pelas organizações, Inimá Krenak propõe uma metodologia baseada no reconhecimento. Em vez de criar novas demandas para as comunidades, a pesquisa parte do princípio de que seus relatos já carregam um patrimônio de conhecimentos que merece ser ouvido, valorizado e colocado em diálogo.

Essa escolha também revela uma dimensão importante da atuação do Fundo Casa. Ao longo de mais de duas décadas apoiando organizações comunitárias, os processos de acompanhamento dos projetos se transformaram, além de instrumentos de gestão, em um importante acervo da memória, das experiências e dos aprendizados construídos nos territórios. Nesta publicação, esse conjunto de registros ganha uma nova leitura, preservando a confidencialidade das organizações e demonstrando como a filantropia comunitária também pode fortalecer a produção de conhecimento.

Para Inimá, a expectativa é que a obra amplie o reconhecimento desses conhecimentos e fortaleça sua presença no debate sobre a crise climática. “Espero que este livro contribua para ampliar nossa capacidade de reconhecer esses conhecimentos e criar mais espaço para que dialoguem com outras formas de compreender e enfrentar a crise climática. Não porque ofereçam respostas simples para uma crise complexa, mas porque fazem parte de um patrimônio de experiências que o debate climático ainda escuta muito menos do que poderia.”

Com ilustrações do artista Joseca Yanomami, a publicação nos lembra que enfrentar a crise climática também passa por ampliar nossa capacidade de escutar. Escutar quem observa a floresta há gerações, quem conhece o ritmo dos rios, quem percebe as mudanças do tempo antes mesmo que elas apareçam nos gráficos e indicadores.

Porque, como mostra a pesquisa, os caminhos para sustentar o céu continuam sendo construídos todos os dias nos territórios indígenas.

A versão digital de O céu continua suspenso – Saberes indígenas e a continuidade da vida em tempos de crise climática está disponível gratuitamente para leitura e download. Também é possível manifestar interesse em receber uma futura edição impressa da obra.

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