28.08.2026

Quando a arte ajuda a defender um território

Diante das transformações provocadas pelos grandes projetos de energia, comunidades encontram na arte uma forma de registrar o que muda, preservar o que permanece e imaginar outros futuros.

Há lugares que continuam existindo na paisagem de um território mesmo depois de mudarem profundamente.

Em comunidades atravessadas por grandes empreendimentos de energia, a transformação do território não acontece somente no mapa. Ela chega ao cotidiano, altera relações e modifica a maneira como as pessoas reconhecem o lugar onde vivem. Mas há quem encontre na criação e na arte uma maneira de responder a essas mudanças.

A arte pode registrar aquilo que está desaparecendo, pode transformar uma questão difícil em uma história que uma criança entende, pode criar espaço para que uma comunidade fale por si mesma e pode preservar conhecimentos que não estão escritos em nenhum documento ou relatório.

É nesse encontro entre criação e defesa do território que atuam iniciativas apoiadas pelo Fundo Casa Socioambiental e financiadas pela Mott Foundation.

Para esses projetos, produzir uma imagem, contar uma história ou criar uma atividade cultural não é uma ação paralela à educação ambiental. É parte da própria estratégia de conscientização.

A linguagem artística permite falar sobre impactos ambientais a partir da experiência de quem vive no território. Em vez de explicar a transformação apenas por números ou termos técnicos, esses grupos procuram criar outras formas de percepção, algumas ligadas à memória e aos saberes ancestrais; outras, à fotografia, à comunicação e à produção cultural.

São maneiras diferentes de fazer a mesma coisa: olhar para o território antes de decidir o que será feito dele. É desse lugar que partem as três histórias desta reportagem.

Na Chapada Diamantina, arte e cultura ajudam comunidades a defender seus territórios

Na comunidade de Tiririca de Cima, em Ibitiara, na Chapada Diamantina, uma festa que atravessa gerações ganhou um novo sentido diante das transformações provocadas pela chegada de empreendimentos de energia renovável.

O Boi de Marinhá, celebrado tradicionalmente em 13 de junho há mais de 200 anos, é uma manifestação cultural que reúne a comunidade em torno da música, da dança e da memória. Quando conflitos relacionados aos novos empreendimentos começaram a atravessar o território, preservar esse espaço de encontro passou a significar também fortalecer os vínculos de uma comunidade sob pressão.

 

Boi de Marinhá, manifestação cultural de mais de 200 anos da comunidade de Tiririca de Cima, em Ibitiara (BA), que também se tornou uma forma de fortalecer os vínculos comunitários diante dos conflitos provocados por empreendimentos de energia renovável. Foto: Acervo OCA

É nesse território que atua o Observatório dos Conflitos Socioambientais da Chapada (OCA), responsável pelo projeto A Guerra de Oyá – mulheres, comunicação e transição socioenergética no sertão baiano, apoiado pelo Fundo Casa.

A experiência de Tiririca de Cima ajuda a explicar a estratégia do projeto: usar a arte para criar diálogo onde o conflito pode produzir medo, silêncio e divisão. Quatro mulheres-lideranças da comunidade participaram da formação de juristas leigos promovida pela iniciativa. A comunidade também está entre as poucas da região que conseguiram dizer não a um empreendimento eólico e impedir seu avanço.

“Um dos maiores desafios que identificamos é a dificuldade de inserção nessas comunidades, uma vez que, antes mesmo da chegada dos empreendimentos, o tecido social já se encontra fragmentado”, explica Gislene Moreira Gomes, coordenadora do projeto.

Por isso, o OCA não trata a cultura como uma atividade à parte da mobilização. Ela é uma porta de entrada para falar sobre aquilo que está acontecendo no território.

Em uma audiência pública envolvendo uma mineradora inglesa, Gislene entrou em cena caracterizada como uma representação da Coroa Britânica. A performance recuperava a história colonial da exploração de diamantes na região e provocava uma reflexão sobre as relações entre passado e presente. A mobilização posterior resultou em denúncias, na paralisação da mineradora e na abertura de um processo internacional no Reino Unido.

 

Gislene Moreira durante uma das performances do espetáculo Sertões Contemporâneos, que leva a escolas e comunidades o debate sobre as transformações provocadas pelos novos empreendimentos de energia. Foto: Acervo OCA

A mesma linguagem aparece no espetáculo Sertões Contemporâneos, que leva para escolas e comunidades discussões sobre os impactos dos novos empreendimentos.  O projeto também produziu livros, podcasts e um videoclipe com mulheres que participaram das formações. São diferentes linguagens para uma mesma disputa de narrativas: quem conta a história de um território também ajuda a definir como ele será percebido e defendido.

Para Gislene, esse talvez seja o papel mais importante da arte nesse processo: “Ela se tornou parte essencial da defesa do território, suprindo a carência de informações e ajudando a distensionar o ambiente, especialmente em locais onde o medo inibe o diálogo.”

Na Chapada Diamantina, a arte não aparece, portanto, apenas como registro de uma cultura que resiste. Ela ajuda a manter viva a própria comunidade que essa cultura reúne e cria espaço para que as mulheres, os jovens e as comunidades possam falar sobre o futuro.

Em Altamira, crianças usam a arte para reconstruir vínculos com a Amazônia

Em Altamira, no Pará, os impactos provocados pela construção de Belo Monte alteraram profundamente a relação de muitas famílias com o rio, a floresta e o próprio território. Crianças, adolescentes e jovens que cresceram em comunidades beiradeiras passaram a viver em bairros urbanos distantes desses ambientes, em um processo que também enfraqueceu vínculos comunitários e formas de pertencimento.

Foi nesse contexto que o Instituto Lilar, em parceria com o Coletivo de Mulheres do Xingu, desenvolveu o Projeto Aldeias, apoiado pelo Fundo Casa. A iniciativa utiliza arte, fotografia, música, muralismo, literatura e atividades comunitárias para aproximar crianças e jovens da natureza, da cultura amazônica e do lugar onde vivem.

Para Daniela Soares, coordenadora do projeto, a arte surgiu como uma resposta aos impactos vividos pelas famílias. “A arte nasce como uma ferramenta estratégica para nós, porque a gente compreendeu e vivenciou todos esses impactos, que provocaram também adoecimento humano na vida das pessoas. E a gente entendeu que a cultura e a arte são ferramentas que instigam e potencializam a alegria”, conta.

Essa alegria, porém, não significa deixar de falar sobre os conflitos. Música, teatro, muralismo, fotografia e contação de histórias ajudam a abordar temas como desterritorialização, mudanças climáticas e os impactos dos grandes empreendimentos de uma maneira que possa alcançar mais pessoas.

Para Daniela, “a arte tem essa capacidade de furar bolhas, de se conectar com as pessoas através de uma música, de uma poesia, de uma história contada através do teatro. Ela tem esse poder de ecoar, de transbordar e de chegar a lugares e pessoas que, muitas vezes, outros formatos de mobilização não conseguem alcançar.”

Nas oficinas do Aldeias, cerca de 40 crianças participaram de atividades de muralismo, lettering e educação ambiental. A fotografia reuniu 15 participantes e deu origem à exposição “Amazônia como eu vejo”, na qual crianças e jovens registraram o cotidiano da própria comunidade.

Mas a transformação mais profunda aparece nas histórias construídas ao longo do tempo. Neymar e Maria Antônia, duas crianças que estiveram na origem do Aldeias, cresceram junto com o projeto. Órfãos após a perda dos pais, eles ajudaram a inspirar a ideia de uma rede comunitária de cuidado com as crianças, as mães e o território.

Hoje, Daniela vê nos dois exemplos do que significa reconstruir pertencimento. Neymar passou a se reconhecer de outra maneira no território onde vive. Maria Antônia passou a participar de espaços de decisão e chegou a dialogar com o poder público sobre a Praça dos Sonhos, pensada a partir das necessidades das próprias crianças.

“Um dos resultados mais importantes é perceber crianças e jovens ocupando as escolas, os fóruns comunitários e outros espaços de participação, compreendendo seus direitos e se reconhecendo como sujeitos capazes de propor soluções para o lugar onde vivem”, destaca Daniela.

Para o projeto Aldeias, cuidar da infância também é proteger o território. Para Daniela, é garantir às crianças o direito de “brincar, sonhar, criar, viver sua cultura, construir vínculos com o rio, com a floresta, com sua comunidade e crescer em um território protegido”. Em Altamira, a arte ajuda a reconstruir esses vínculos e a imaginar outros futuros para a Amazônia.

Alto do Tororó, na Bahia: quando a arte também defende o território

No Alto do Tororó, em Salvador (BA), a comunidade quilombola e pesqueira convive há décadas com os impactos da atividade industrial na Baía de Aratu. Cerca de 210 famílias têm na pesca e na coleta de mariscos parte importante de seu modo de vida, hoje pressionado por empreendimentos ligados à cadeia de petróleo e gás e por outras estruturas industriais e militares.

Foi nesse território que a Associação de Mulheres Akomabu, em parceria com a Assessoria Cirandas e com apoio do Fundo Casa, desenvolveu o projeto Maré Baixa: Pescadores e Marisqueiras Quilombolas em Luta. A iniciativa combinou formação política, cartografia social, comunicação popular e arte para fortalecer a defesa do território.

A arte não estava prevista apenas como linguagem. Ela foi incorporada ao projeto a partir de uma construção com as próprias mulheres da comunidade, que defenderam que a comunicação das lutas do quilombo também deveria partir de suas manifestações culturais, memórias e formas de expressão.

“A arte passou, assim, a democratizar a comunicação da luta e a fortalecer o protagonismo da própria comunidade na produção e na circulação de suas narrativas”, explica Joelma Antunes, coordenadora do projeto.

A partir dessa perspectiva, fotografias, podcasts, celebrações e outras produções passaram a registrar as transformações percebidas no manguezal, na pesca e na mariscagem. A cartografia social do mar, construída com os conhecimentos dos próprios moradores, também ajudou a transformar memórias e usos do território em uma ferramenta de reivindicação de direitos.

Mas contar a história do quilombo não significa falar apenas sobre aquilo que está sendo perdido. A arte também ajuda a lembrar o que permanece.

“A arte permite que a defesa territorial não seja comunicada somente pela dor, pelo sofrimento e pela denúncia. Ela também valoriza a alegria, a memória, a culinária, a ancestralidade, as manifestações culturais e a beleza do Quilombo Alto do Tororó”, afirma Joelma.

Essa dimensão apareceu de forma especialmente forte na retomada da Festa das Marisqueiras e dos Pescadores do Quilombo Alto do Tororó, depois de cerca de 40 anos. A mobilização, liderada por mulheres da comunidade, recuperou uma celebração tradicional e transformou a cultura também em espaço de reivindicação e visibilidade.

Outro resultado importante surgiu entre os jovens. As oficinas de educomunicação aproximaram uma nova geração da organização comunitária e deram origem a iniciativas como a exposição fotográfica Quando o Corpo Vira Paisagem, o podcast Do Quilombo para o Mundo e o grupo juvenil Oriki Comunicações.

Assim, a comunicação deixou de ser apenas uma forma de contar o que acontece no território. Passou a ser também uma maneira de formar novas vozes para contá-lo.

No Alto do Tororó, fotografar, mapear, fazer um podcast ou recuperar uma festa tradicional são gestos que se encontram no mesmo lugar: a defesa de uma memória viva e do direito de continuar existindo no território.

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