24.04.2026
Educação que abre os olhos: livro de educação indígena fortalece alfabetização e cultura no Xingu
Por Lucas Duarte Matos
Projeto apoiado pela chamada “Educação para o BemViver – Apoio às comunidades indígenas pela equidade na educação” fortalece a alfabetização bilíngue no Alto Xingu
A escola não chegou ao Alto Xingu de uma vez. Chegou aos poucos, na década de 1980, como semente que brota devagar. Antes dela, o saber vinha da palavra dos anciãos e anciãs, dos ensinadores, da memória viva que atravessava gerações.
Com o tempo, quase toda aldeia passou a ter caderno, livro e professor. A escola começou a caminhar junto com a cultura, mas nem sempre os livros acompanharam esse passo.
O educador indígena Mutuá Mehinaku percebeu esse descompasso primeiro pelos desenhos. Na sala de aula, as crianças olhavam para as imagens dos livros enviados pelo governo e hesitavam. Casas de alvenaria, ruas asfaltadas, árvores que não se pareciam com a vegetação do Xingu. Faltava um material que nascesse do próprio território.
Um dia, Mutuá decidiu inverter a lógica. E se o livro começasse pelo que está perto? Pela mandioca. Pelo fogo. Pela aldeia.
Foi assim que começou Ingu Helú: De olho aberto.

Crianças folheiam Ingu Helú: De olho aberto, cartilha baseada no cotidiano das aldeias do Alto Xingu | Foto: Acervo Instituto da Família Alto Xingu
A obra, uma cartilha bilíngue (karib-português) com 45 verbetes ilustrados, foi construída a partir do universo xinguano e será distribuída gratuitamente para escolas de 11 aldeias dos povos Kuikuro, Kalapalo, Matipu e Nahukwá.
Em janeiro de 2026, uma caravana percorreu mais de 1,5 mil quilômetros de carro e barco entre o Território Indígena do Xingu e os municípios de Querência, Gaúcha do Norte e Canarana, no Mato Grosso, para entregar exemplares diretamente nas mãos de estudantes e professores.
Em poucas horas, já circulavam de mão em mão. As crianças folheavam as páginas e iam apontando o que reconheciam: o peixe, a roça, a gente. Antes mesmo de ler, identificavam. O livro deixava de ser algo distante e passava a ser espelho.
Aprender é abrir os olhos: a transformação vista na sala de aula
Em karib, “Ingu helü” significa “abrir os olhos”. E foi justamente esse movimento que orientou a criação do livro. Para Mutuá Mehinaku, autor do livro e diretor da escola em Ipatse, o impacto já é perceptível no cotidiano.
“Hoje eu vejo as crianças desenhando, pintando, reconhecendo o peixe, a raia, tudo o que tem ali. Eles reconhecem facilmente. Isso ajuda na alfabetização, na leitura das imagens, até chegar ao ponto de escrever o nome na nossa língua”, conta Mutuá.
O livro passou a fazer parte da rotina das aulas, circulando diariamente entre crianças e professores. A produção e distribuição do livro foram viabilizadas com apoio do Fundo Casa Socioambiental, por meio da chamada Educação para o Bem Viver – Apoio às comunidades indígenas pela equidade na educação, voltada ao fortalecimento de iniciativas educacionais construídas nos próprios territórios. Para Mutuá, esse suporte foi decisivo: “isso é importante para nós e também para os financiadores que deram credibilidade ao projeto.”
Coordenador-geral do projeto e presidente do Instituto da Família do Alto Xingu, Takumã Kuikuro resume o alcance da iniciativa: “quando o conteúdo nasce da própria comunidade, ele fortalece a língua, os saberes tradicionais e a memória dos ancestrais. Produzir material próprio garante autonomia pedagógica e fortalece a permanência dos jovens na cultura.”
Ele ressalta que, no contexto do Xingu, a educação é também uma forma de resistência cultural.
“Iniciativas assim não são apenas pedagógicas: são estratégicas para proteger a identidade, fortalecer a comunidade e garantir continuidade para as próximas gerações”
Takumã Kuikuro, presidente do instituto
Professor e um dos autores da obra, Daniel Massa, destaca que o principal legado do projeto está no deslocamento do olhar: “O principal legado de Ingu Helü para a educação intercultural é deslocar o centro da narrativa, colocando o povo Kuikuro como autor de sua própria história e referência pedagógica. Ele fortalece a identidade cultural das crianças indígenas e, ao mesmo tempo, convida estudantes não indígenas a aprenderem a partir de outra cosmovisão. O livro é um instrumento político e educativo de valorização linguística”, afirma Daniel.
A dimensão visual do livro carrega o mesmo cuidado. Ilustrador da obra, Ricardo Moura descreve o processo como um exercício de escuta: “antes de desenhar qualquer traço, eu precisei aprender a olhar. O mais importante foi me afastar das representações equivocadas sobre os povos indígenas e buscar formas visuais que preservassem a dignidade dos povos xinguanos.”
Os traços vazados e em preto e branco foram pensados para que as próprias crianças possam colorir as páginas. O desenho simples não reduz a complexidade do território — ao contrário, permite que ela apareça sem interferências.
“Se aprender é abrir os olhos, ilustrar esse livro foi, antes de tudo, manter os meus próprios olhos abertos para o território, para as infâncias e para as múltiplas formas de conhecimento que existem no nosso país”
Ricardo Moura, ilustrador do livro
Abrir os olhos, como diz a língua Karib, é aprender a enxergar.
E enxergar, aqui, é reconhecer-se.
Quando a criança se vê no livro, o livro deixa de ser objeto externo e passa a ser extensão do território. É assim que se abrem caminhos. Não para sair da cultura, mas para seguir com ela.
O papel do apoio e financiamento
O projeto ganhou forma com o apoio do Fundo Casa Socioambiental, por meio da chamada Educação para o Bem Viver – Apoio às comunidades indígenas pela equidade na educação, financiada pela Imaginable Futures, que apoia iniciativas comprometidas com a construção de uma educação mais justa, diversa e conectada às realidades dos territórios.
O projeto foi aprovado em 2025 e envolveu etapas como finalização dos verbetes, revisão bilíngue especializada, projeto gráfico, impressão e uma logística complexa de distribuição por estrada e barco. Parte dos exemplares já foi entregue e incorporada ao cotidiano das escolas, onde o material vem sendo utilizado nas atividades pedagógicas.
Ao todo, cerca de mil crianças devem ser beneficiadas diretamente. A distribuição dos livros segue em andamento e continuará chegando a outras comunidades ao longo dos próximos dois anos, ampliando o acesso a um material pedagógico alinhado à realidade do território.
