03.04.2026
O que permanece: sobre legado, escolha e o futuro que decidimos sustentar
Há gestos que não pertencem apenas ao momento em que acontecem. Eles atravessam o tempo.
Foi assim quando o Fundo Casa Socioambiental recebeu, pela primeira vez em sua história, uma doação por meio de herança, um legado deixado por Lucinda “Cindy” Buck Ewing (1941–2024), fotógrafa e filantropa cuja vida foi marcada por uma atenção rara ao mundo e por um compromisso contínuo com o cuidado.
Cindy em visita ao Brasil, em novembro de 2016, durante encontro com Maria Amalia Souza e aproximação com o trabalho desenvolvido pelo Fundo Casa Socioambiental.
“Há momentos em que um gesto carrega uma convicção silenciosa, sem precisar se explicar, aquilo que uma vida inteira representou”, afirma Maria Amália Souza, fundadora e diretora de estratégias globais em filantropia do Fundo Casa Socioambiental. Trata-se de uma escolha feita com lucidez sobre o que deve continuar existindo.
Lucinda “Cindy” Buck Ewing percorreu o mundo com um olhar atento. Desde cedo, encontrou na fotografia uma forma de perceber o que muitas vezes passa despercebido: a luz, a textura, os detalhes que revelam a profundidade da vida cotidiana. Em suas próprias palavras, fotografar era uma maneira de “ajudar o mundo e a nós mesmos a apreciar, na existência cotidiana, aquilo que muitas vezes não é visto”.
Há uma coerência profunda entre essa forma de ver e a forma como escolheu agir. Ao longo de sua trajetória, apoiou causas ligadas à equidade social em diferentes partes do mundo, com um compromisso consistente com iniciativas lideradas por mulheres. Fez de sua trajetória um meio de participação ativa e coletiva na construção de outras possibilidades de vida.
Sua decisão de destinar parte de seu legado ao Fundo Casa não é um gesto isolado. É continuidade.
Há mais de duas décadas, o Fundo Casa apoia iniciativas comunitárias em todo o Brasil, especialmente aquelas conduzidas por povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações de base. Em muitos desses contextos, são mulheres que estão na linha de frente da proteção de florestas, águas, cerrados, manguezais e modos de vida inteiros. São elas que sustentam, diariamente, respostas concretas à crise climática. E, ainda assim, seguem entre as menos apoiadas.
“Nosso trabalho sempre foi garantir que essas mulheres não sejam deixadas sozinhas carregando o futuro”, diz Amália. “Saber que Cindy escolheu se somar a isso, mesmo após sua partida, mostra que esse caminho também é compartilhado.”
Em um mundo marcado por níveis extremos de concentração de riqueza, decisões como essa ajudam a recolocar uma pergunta essencial: o que fazemos, afinal, com aquilo que acumulamos ao longo da vida?
A resposta de Cindy foi inequívoca: seus recursos começam a se transformar em continuidade, seu patrimônio em presença, e seu legado passa a ganhar forma concreta, nas mãos de mulheres que cuidam da vida, defendem seus territórios e constroem soluções todos os dias.
Esse gesto também abre uma possibilidade. Não como exceção, mas como exemplo. Um convite silencioso, ao mesmo tempo urgente, para que mais pessoas reconsiderem o destino de seus recursos, em vida ou depois dela, e reconheçam o poder de direcioná-los para onde já existem conhecimento, ação e transformação em curso.
O Fundo Casa Socioambiental recebe esse legado com gratidão, mas, sobretudo, com responsabilidade.
Porque há gestos que não terminam quando acontecem. Eles continuam, naquilo que passam a sustentar. E talvez essa seja uma das formas mais profundas de permanecer.

Cindy em visita à Maria Amalia no Brasil em novembro de 2016, em que conheceu a Mata Atlântica e a Amazônia, e pôde entender de perto a luta do Fundo Casa por proteger esses lugares e suas populações. Foto: arquivo pessoal
