10.04.2026

Quando o território vira escola: a construção da educação quilombola em Cachoeira (BA)

Projeto apoiado pelo Fundo Casa Socioambiental fortalece a construção coletiva da educação quilombola em comunidades do Recôncavo Baiano

No distrito de Santiago do Iguape, zona rural de Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, em meio aos manguezais e aos braços da Baía do Iguape, no estuário do Rio Paraguaçu, aprender começa no ritmo das marés. Ele se move no trabalho de quem vive da pesca artesanal e da mariscagem, nas rodas de samba que atravessam gerações e nas histórias que seguem vivas na memória das pessoas mais velhas da comunidade.

Ali, aprender também significa escutar. Escutar o território, seus tempos e seus saberes, que circulam entre as famílias quilombolas da região. É nesse cenário, marcado pela relação profunda com as águas e com a terra, que comunidades quilombolas de Cachoeira seguem fortalecendo um caminho próprio para a educação: uma educação que reconhece e valoriza a história, a cultura e os modos de vida dos territórios onde está inserida.

Esse é o caminho que orienta o projeto “(Re) Elaboração do PPP: Tecendo fios e caminhos nas escolas quilombolas”, desenvolvido pelo Instituto Mãe Lalu com apoio do Fundo Casa Socioambiental e financiamento da Imaginable Futures. A iniciativa busca fortalecer a elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP) de escolas quilombolas da rede municipal de ensino, colocando no centro do processo os saberes e as experiências das próprias comunidades.

O PPP define as bases do funcionamento de cada escola: como se ensina, o que se ensina e quais valores orientam o processo educativo. No caso das escolas quilombolas de Cachoeira (BA), a proposta é que esse documento seja construído coletivamente e reflita as realidades e identidades dos territórios onde as escolas estão inseridas.

Para a diretora pedagógica do Instituto Mãe Lalu, Oracy Suzarte, o PPP precisa ser entendido como um instrumento vivo, conectado à realidade das comunidades. “Um documento que, longe de ser um manual rígido e inflexível, se constitui como balizador do fazer na e pela escola. Consideramos um documento real, um guia que orienta as ações da escola, o ensino e a aprendizagem, dando centralidade a uma educação que reconheça e valorize histórias, saberes e práticas quilombolas”, destaca Oracy

O trabalho acontece no distrito de Santiago do Iguape, comunidade remanescente quilombola, a pouco mais de 100 quilômetros de Salvador. A região faz parte da Bacia do Iguape e mantém uma forte relação com o mar e com os manguezais, de onde muitas famílias retiram sua principal fonte de sustento.

A pesca artesanal e a mariscagem continuam sendo atividades centrais para a economia local e para a vida comunitária. Ao mesmo tempo, a cultura quilombola permanece viva nas manifestações culturais que marcam o cotidiano do território — do samba de roda à capoeira, das festas tradicionais às celebrações religiosas.

Mas, apesar dessa riqueza cultural, as escolas nem sempre conseguem incorporar esses conhecimentos ao processo educativo. Em muitos casos, o currículo escolar segue modelos distantes da realidade das comunidades, o que acaba criando uma desconexão entre o que é ensinado em sala de aula e aquilo que faz parte da vida cotidiana dos estudantes.

É justamente essa distância que o projeto busca enfrentar.

A iniciativa propõe um processo formativo com equipes gestoras das escolas quilombolas do município, envolvendo diretores, coordenadores pedagógicos e educadores em ciclos de formação voltados à construção coletiva do PPP. 

Para isso, o Instituto Mãe Lalu utiliza uma metodologia própria chamada Pedagogia da Ciranda. Inspirada nas rodas tradicionais que fazem parte da vida comunitária, a metodologia valoriza o diálogo, a oralidade e a construção coletiva do conhecimento. Nos encontros formativos, professores, gestores e representantes da comunidade se reúnem em rodas de conversa para compartilhar experiências, discutir desafios e construir caminhos para a educação quilombola.

A roda funciona como ponto de partida e de chegada: primeiro para escutar e compartilhar ideias, depois para refletir coletivamente sobre as práticas educativas e, por fim, para transformar essas reflexões em propostas concretas para as escolas.

O apoio do Fundo Casa tem sido um elemento central para viabilizar esse processo.

“O apoio do Fundo Casa está sendo fundamental para efetivação do processo formativo das equipes escolares, voltado para a (re)elaboração do PPP das escolas quilombolas da rede municipal de Cachoeira. O Instituto vem se fortalecendo como instituição, tanto na sua visibilidade quanto na sua metodologia, que está sendo adaptada para atender diferentes realidades.” 
Oracy Suzarte, diretora pedagógica do Instituto Mãe Lalu. 

Ao longo do projeto, estão sendo produzidos materiais de orientação para apoiar as equipes escolares no processo de elaboração dos novos PPPs. Esses materiais ajudam a integrar diferentes dimensões do conhecimento, aproximando o ensino formal dos saberes tradicionais presentes nas comunidades quilombolas. 

Em movimento, a experiência das escolas quilombolas já semeia transformações na educação pública, afirmando os saberes e as identidades quilombolas como parte viva, presente e estruturante das políticas educacionais.

Fortalecer a educação quilombola também significa valorizar os conhecimentos acumulados pelas comunidades ao longo de gerações. Saberes que ajudam a compreender o ambiente, cuidar dos recursos naturais e preservar práticas culturais que fazem parte da identidade local.

Para as comunidades de Santiago do Iguape e de outras localidades quilombolas de Cachoeira, construir uma educação conectada ao território é também uma forma de garantir que as próximas gerações conheçam e valorizem suas próprias histórias.

Porque, ali, aprender é reconhecer as raízes que sustentam o presente e ajudam a construir futuros possíveis.



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