29.04.2026
Histórias do Xingu: articulação coletiva na defesa dos territórios
O Xingu é território vivo antes de denominar um projeto energético. É casa, cultura e memória que atravessa gerações.
Muito antes do licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (PA), já havia povos organizados, alianças construídas e uma rede de apoios que ligava comunidades da floresta a pesquisadores, defensores ambientais e movimentos sociais no Brasil e fora dele. Quando a hidrelétrica foi anunciada, não encontrou um vazio. Encontrou território. E território tem voz e responde.
Em 1989, no primeiro Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira (PA), lideranças se levantaram contra o complexo de barragens, então chamado Kararaô. Diante de autoridades do setor elétrico, Tuíra Kayapó, ativista indígena e do meio ambiente, encostou um facão no rosto de um diretor da Eletronorte. O gesto, que ganhou o mundo, virou símbolo da defesa do território e deixou claro que o Xingu não seria decidido sem seus povos.

Tuíra Kayapó – Liderança Indígena do Xingu. | Foto: Acervo Movimento Xingu Vivo
Anos depois, em maio de 2008, outro encontro marcaria definitivamente essa história. Povos indígenas, ribeirinhos, agricultores, organizações sociais e apoiadores de diferentes partes do país se reuniram e deram nome ao que já existia como força coletiva. Como lembra Antônia Melo, liderança do movimento que acompanha essa trajetória desde o início. “A partir daquela data, esse movimento em defesa do rio Xingu, dos povos e da natureza, passaria a se chamar Movimento Xingu Vivo Para Sempre. E é por isso que nós continuamos”, conta.
A Usina Hidrelétrica foi construída, mas a resistência continuou. O desvio de até 80% da água do Xingu alterou o território, deslocou famílias e afetou a pesca, agricultura e a saúde da população. Altamira cresceu de forma desordenada e a violência aumentou. Chamaram isso de progresso e de energia limpa, mas no território, ficaram condicionantes descumpridas, promessas não realizadas e perdas que não aparecem nos relatórios.
Como destaca Brent Millikan, ex-diretor da International Rivers no Brasil e atualmente membro da Secretaria Executiva do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental (Rede da Sociedade Civil Brasileira), que acompanha o processo desde os primeiros debates: “nem sucesso total, nem derrota total. Belo Monte foi feita na marra, mas a mobilização continua. E essas lições são importantes demais para serem esquecidas.”
Para Brent Millikan, a história do Xingu mostrou os limites de um modelo energético concentrado em grandes interesses, “mas também a força da organização comunitária e das alianças entre povos indígenas, ribeirinhos e movimentos sociais”.
Ao longo dos anos, projetos de formação, mobilização, monitoramento e comunicação contaram com apoios que fortaleceram capacidades já existentes no território.
Hoje, uma nova ameaça paira sobre a Volta Grande do Xingu: o projeto de mineração da Belo Sun, que pretende instalar a maior mina de ouro a céu aberto do país na mesma região já impactada pela hidrelétrica. “O exemplo de Belo Monte já basta”, dizem as organizações da região em carta-manifesto recente. “É preciso unir-se para fazer frente a mais esta ameaça.”
A seguir, contamos quatro histórias de projetos apoiados pelo Fundo Casa Socioambiental que ajudam a entender como o Xingu se articulou e como o apoio comunitário e filantrópico foi importante para essa luta e resistência.
1- O Xingu que se articula: encontros que reconstruíram alianças e definiram estratégias diante de Belo Monte

Foto: Acervo Movimento Xingu Vivo
Após o leilão de Belo Monte, em 2010, o movimento indígena no Xingu enfrentava desinformação, dificuldades de comunicação e crescente pressão política, evidenciando a necessidade de reorganização. Diante disso, o Movimento Xingu Vivo Para Sempre promoveu o Encontro dos Povos Indígenas da Bacia do Xingu sobre Belo Monte, reunindo cerca de 200 lideranças para alinhar informações, reconstruir alianças e definir estratégias coletivas no processo de licenciamento.
Os apoios recebidos fortaleceram essa capacidade de articulação, garantindo mobilização, deslocamento de lideranças e presença em espaços estratégicos. Eles contribuíram para a participação do movimento em encontros regionais como o Acampamento Terra Livre regional, em Altamira, e o Encontro das 4 Bacias, em Itaituba, que reuniu cerca de 500 representantes dos rios Xingu, Madeira, Tapajós e Teles-Pires. Também possibilitaram articulações com o Ministério Público Federal para monitorar condicionantes da licença prévia.
A principal dificuldade era a comunicação. A resposta foi ampliar o trabalho de base, investir em formação e fortalecer lideranças como multiplicadoras de informação. A articulação foi o que sustentou o movimento diante de um cenário adverso.
“Se não fosse a união entre indígenas, ribeirinhos, agricultores e movimentos sociais, essa história teria sido muito mais dura. O que nos manteve foi a articulação”, afirma Antônia Melo, liderança do movimento Xingu Vivo Para Sempre
Mesmo após a construção da usina, a organização permanece ativa no acompanhamento das comunidades impactadas. “Belo Monte foi construída, mas a nossa luta não terminou. O rio continua aqui, os povos continuam aqui, e os impactos também continuam”, afirma Antôonia Melo.
2- Mulheres na linha de frente da luta por justiça e reparação

Foto: Acervo Movimento Xingu Vivo
Quando as turbinas da Usina Hidrelétrica de Belo Monte começaram a operar, para quem vive no território, era apenas o começo de outra etapa. As casas removidas, as ilhas alagadas, a pesca comprometida, os reassentamentos urbanos com estrutura precária e a perda de renda atingiram em cheio as famílias, principalmente as mulheres.
Foi nesse cenário que o Movimento Xingu Vivo Para Sempre reorganizou sua estratégia e estruturou dois projetos. O primeiro, “Luta por reparação: o protagonismo das mulheres no enfrentamento das violações de Belo Monte”, marcou a virada da resistência contra a construção para a cobrança sistemática de direitos. Tornou-se necessário mapear violações, organizar denúncias e pressionar juridicamente por respostas.
As visitas às comunidades de Volta Grande do Xingu, no Pará, os encontros com ribeirinhas e mulheres dos bairros periféricos, os levantamentos de danos socioambientais e o encaminhamento de denúncias ao Ministério Público e às defensorias revelaram algo central: eram principalmente as mulheres que estavam na linha de frente.
Como lembra Maria Elena Araújo, liderança do movimento: “as denúncias que a gente recebeu no Xingu foram as próprias mulheres que vieram e fizeram, principalmente as mães solo, porque eram elas as responsáveis pelas suas casas.”
Ela explica que a mudança de rumo foi estratégica: “a gente precisou parar, respirar e mudar a rota, sustentando a luta juntamente com as mulheres. Quando se fechava a estrada e o escritório da Norte Energia, estavam lá as mulheres na linha de frente.” Maria Elena complementa que, ainda que as conquistas tenham sido limitadas diante da desigualdade de forças, houve avanços concretos no reconhecimento de famílias atingidas e na formalização de demandas.
Em 2019, um novo contexto impôs novos desafios. A ameaça da mineração na Volta Grande do Xingu e o enfraquecimento de órgãos públicos de defesa de direitos exigiam ampliar a articulação. Surge então outro projeto: “Apoio para articulação e organização entre famílias ribeirinhas e grupos de mulheres urbanas impactadas pela UHE Belo Monte e mineração”.
A iniciativa conectou mulheres dos reassentamentos urbanos coletivos de Altamira, comunidades ribeirinhas e movimentos da Transamazônica. Foram realizadas oficinas, articulações regionais e encontros de mulheres para fortalecer a rede amazônica de defesa de direitos. Em um contexto de desemprego, aumento da violência, precarização da saúde e da educação e colapso da pesca, sustentar a organização coletiva é, por si só, um ato político.
Os apoios recebidos nesses dois projetos fortaleceram capacidades locais, garantindo presença nas comunidades, apoio às lideranças e articulação jurídica das demandas. A luta por reparação continuou, com estratégia, memória e protagonismo das mulheres.
3- Território, ciência e direitos: quando o Xingu produz seus próprios dados e respostas
No Médio Xingu, dois projetos realizados a partir de 2019 mostram como organização de base, produção de dados e enfrentamento institucional caminham juntos na defesa do território.
Com o projeto “Monitoramento independente dos impactos da Hidrelétrica de Belo Monte sobre a qualidade das águas consumidas pelos ribeirinhos do reservatório”, famílias que retornaram às margens do rio passaram a sistematizar aquilo que já percebiam no cotidiano: mudanças na cor e no cheiro da água, queda do pescado e suspeitas de contaminação. Enquanto relatórios oficiais apontavam normalidade, as comunidades decidiram produzir seus próprios indicadores.
“Vejo de fundamental importância termos, nós mesmos, nossas bases de dados, estudos que fundamentam o que estamos falando, a partir dos nossos próprios indicadores. Os estudos apresentados por eles nunca mostram impactos ambientais ou inviabilidades de consumo”, afirma Josefa Silva, liderança do Conselho Ribeirinho de Altamira.
Com apoio técnico, foram definidos pontos de coleta e realizadas análises periódicas. O processo fortaleceu a articulação entre comunidades e consolidou o Conselho Ribeirinho como espaço político. “O trabalho de base, a organização política e os espaços de encontro entre nós, onde discutimos todas as questões e nos fortalecemos, foram fundamentais. Uma das coisas principais dentro do Conselho foi fazer o filtro de quem realmente lutava pelo coletivo e não pensava só em si mesmo”, diz Josefa Silva.
No mesmo período, o projeto “Fortalecimento dos povos indígenas do Médio Xingu: Participação da Reunião Geral Extraordinária do Plano Básico Ambiental – Componente Indígena” viabilizou a mobilização de lideranças de 12 Terras Indígenas impactadas para uma reunião articulada com o Ministério Público Federal. Mesmo após a licença de operação da usina, condicionantes seguiam descumpridas, incluindo medidas ligadas à proteção territorial, saúde e segurança alimentar. Sem apoio da concessionária ou da Funai para deslocamento, os próprios indígenas organizaram a ida a Altamira.
Segundo Josefa, os apoios recebidos foram decisivos para garantir a continuidade da organização. “Desde 2018, o Fundo Casa tem sido de fundamental importância em nossos trabalhos e organizações de base. As reuniões de 2023, 2024 e 2025 só foram possíveis a partir desses apoios, que viabilizaram grande parte das nossas ações dentro e fora do território, como reuniões setoriais, encontros com órgãos e deslocamentos — tudo isso em torno da luta pela retomada do território”, destaca.
Os dois projetos partem do mesmo princípio: quem vive no território precisa ter voz sobre o que acontece nele. No Xingu, produzir dados, reunir lideranças e acionar a Justiça não são frentes separadas — são partes de uma mesma estratégia de permanência e defesa coletiva.
Em ambos, está em jogo a permanência no território com dignidade. Os apoios fortalecem deslocamentos, reuniões, monitoramento e articulações jurídicas. No Xingu, o território fala pela água, pelos relatórios das próprias comunidades e pelas assembleias indígenas. Ciência comunitária e ação institucional se tornam parte da mesma estratégia de defesa da vida e dos direitos.
4- Geração Amazônia: novas vozes da periferia no debate sobre energia

Crianças e jovens participam de atividade formativa em Altamira (PA), em ação do Instituto Lilar voltada ao fortalecimento do pertencimento e da relação com o território no Médio Xingu. | Foto: Gabriel Santos de Sousa
Se as primeiras mobilizações no Xingu enfrentaram o avanço das barragens, a nova geração cresce entre os impactos já instalados. No Conjunto Residencial Santa Benedita, em Altamira (PA), bairro formado por famílias removidas após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, adolescentes que nasceram ou eram crianças durante as obras agora começam a fazer suas próprias perguntas.
Crianças e jovens participam de atividade formativa em Altamira (PA), em ação do Instituto Lilar voltada ao fortalecimento do pertencimento e da relação com o território no Médio Xingu.
Foto: Gabriel Santos de Sousa
É nesse contexto que o Instituto LILAR desenvolve o projeto “Geração Amazônia: Formação de jovens lideranças periféricas impactadas pela UH Belo Monte”, com apoio do Fundo Casa Socioambiental. A proposta parte de um reconhecimento simples: quem vai viver o futuro do território precisa participar das decisões sobre ele.
Ao longo da formação, jovens discutem mudanças climáticas, direitos socioambientais e modelos energéticos. Aprendem também a usar a comunicação como ferramenta política, produzindo vídeos, registros e um minidocumentário com propostas construídas por eles mesmos. Não se trata apenas de informação, mas de posicionamento.
No Conjunto Santa Benedita, muitos cresceram ouvindo histórias sobre remoções, reassentamentos precários e promessas não cumpridas. Vivem em um município que concentra altas emissões de gases de efeito estufa, pressões do desmatamento e novas ameaças econômicas. Para essa geração, a transição energética é uma discussão sobre emprego, território, clima e permanência.
O projeto oferece ferramentas para que essa juventude transforme experiência em argumento e vivência em proposta. Ao conectar formação política, linguagem audiovisual e participação em espaços públicos, abre caminho para que adolescentes periféricos ocupem o debate que, por muito tempo, foi decidido sem eles.
Se a história do Xingu sempre foi marcada por resistência, agora ela também é atravessada por sucessão. A nova geração não herda apenas os impactos. Herda a memória da luta e começa a escrever seus próprios capítulos.
Na avaliação de Brent Millikan, o que aconteceu no Xingu ultrapassou as fronteiras da região e mudou o debate sobre grandes hidrelétricas no Brasil e no mundo. A história de resistência segue nos processos judiciais, nos monitoramentos independentes, nas assembleias indígenas, nas reuniões de mulheres e nas comunidades que continuam cobrando reparação.
Ao longo desses anos, o apoio de iniciativas como o Fundo Casa Socioambiental tem sido fundamental para fortalecer a mobilização das comunidades e garantir que suas vozes e estratégias de resistência sigam ativas nos territórios. Para Antonia Melo, essa parceria tem significado concreto: “o Fundo Casa é a nossa grandiosa CASA. Acolhedora, comprometida, sensível. Sempre pronta para atender e contribuir com as necessidades do movimento.”
Brent Millikan reforça que “as soluções sempre vieram do território. O papel de aliados e apoiadores é fortalecer quem já está na linha de frente.” Uma resistência que produz dados, articula redes, incide politicamente e constrói memória.
Uma luta que não começou com a barragem e que tampouco termina com ela, porque é sustentada por quem vive no território e sabe que permanecer também é uma forma de justiça e de reconhecimento para quem protege o território e o meio ambiente.
