22.02.2021

Agroflorestar é um ato revolucionário

A história da transformação da mandioca: de sombra paras as pequenas árvores até virar farinha no prato. Na foto, Saulo trabalha na casa de farinha construída com apoio do projeto, mexendo manualmente a farinha. O projeto busca resgatar a alimentação tradicional da comunidade, baseada principalmente nos derivados de mandioca. Foto: Maria Eduarda Andrade Guimarães

Por Eduardo Alfredo Moraes Guimarães

Não há como negar que é um ato revolucionário se contrapor às monoculturas da agricultura colonial de exportação e, ao mesmo tempo, colocar no centro da labuta diária, a mandioca: planta da tradição ancestral dos povos originários, que se situa entre o mundo dos humanos e o universo dos encantados. Fonte de um alimento importantíssimo para a humanidade, a farinha de mandioca é extraída de suas raízes por um complexo processo de detoxificação. Não há também como negar o caráter revolucionário de tecnologias de cultivos que colocam no epicentro os saberes ancestrais dos povos originários, em um projeto que se preocupa com as pessoas idosas e, sobretudo, com as pessoas portadoras de deficiências, seguimentos da população extremamente vulneráveis, especialmente nos espaços rurais, carentes da presença do poder público. Gente gastada pelo trabalho extenuante nos grandes cacauais, que conquistou a terra na luta pela Reforma Agrária e que, apoiada pelo Fundo Casa Socioambiental, consegue transcender as monoculturas do agronegócio, plantando tudo misturado, como os antepassados faziam.

No Sul da Bahia, terra do cacau, na maioria dos assentamentos de Reforma Agrária encontramos imagens de decadência nas antigas monoculturas da planta, “viciadas” em agrotóxicos e fertilizantes industriais. A infraestrutura de produção, barcaças, cochos de fermentação e depósitos estão em ruínas e abandonados. As evidências revelam que, juntamente com a conquista da terra, os “sem terra”, herdaram um projeto monocultural insustentável, que levou à falência o fazendeiro e criou as condições para a desapropriação da fazenda.  É assim no Assentamento Floresta do Sul: cacau e nada mais! É importante ressaltar que não há no assentamento uma grande floresta. Existem, na realidade, grandes árvores envelhecidas pela ação do tempo e pelas agressões dos agrotóxicos e fertilizantes. Elas estão aqui, ali e acolá, sombreando um cacaual decadente e não há como ser diferente, pois o cacaual segue sendo algo estranho ao ambiente florestal local, sistema complexo que se sustenta em equilíbrio dinâmico e no qual a mudança é constante. Essa afirmação vem da sabedoria de indígenas e quilombolas, silenciada por séculos, presente nas entrelinhas das reuniões realizadas no âmbito do projeto.

Dona Nicinha descascando mandiocas e Zé Pequeno utilizando o ralador. Foto: Maria Eduarda Andrade Guimarães

Plantar misturado, ou seja, sair do padrão nesses espaços é um ato revolucionário. A pandemia tornou as coisas ainda mais difíceis, mas, de todo modo, os efeitos mais perversos dela revelaram a importância do quase tudo e da farinha no prato. A área piloto de agrofloresta do projeto foi uma grande escola e fonte de conhecimento. Com baixa a produção de cacau, preço baixo das amêndoas, dificuldades no transporte e, sobretudo, com os inconvenientes do lockdown, ficou claro para as famílias envolvidas no projeto a importância das roças de quase tudo e da produção de farinha de mandioca para o autoconsumo. O projeto do ITC – Instituto para o Desenvolvimento Humano e Integrado, “A ancestralidade indígena e africana no burburinho da Reforma Agrária: inclusão da pessoa com deficiência e sustentabilidade”, apoiado pelo Fundo Casa, na chamada de projetos Justiça Ambiental com a Realidade de Pessoas com Deficiência, foi como uma luz no final do túnel.

A história do ITC com o assentamento Floresta do Sul começou ainda nos tempos de acampamento, quando a presença dos “sem terra” provocava medo entre os pequenos agricultores do lugar. Os primeiros contatos foram de descobertas. Entre as primeiras amizades, Cabeludo, índio tupinambá e Antônio, quilombola de Itacaré, eram gente estranha em um lugar onde, de acordo com o imaginário das elites, não teria ocorrido escravidão e todos os indígenas já estariam completamente aculturados, portanto, não seriam mais índios. Os contatos mais efetivos, já no tempo do assentamento, foram marcados pelas oficinas do Alimento Vivo, quando se refletia sobre a importância das PANCs (plantas alimentícias não convencionais), pelas conversas sobre plantas medicinais e nas reflexões sobre a contaminação do ecossistema pelos agrotóxicos. Com o apoio do Fundo Casa, a partir ano de 2019, o trabalho adquiriu outra dimensão. A proposta de trabalhar com pessoas idosas e com deficiência foi um grande desafio para toda a equipe do ITC: professoras de yoga, fisioterapeutas, nutricionistas e terapeutas das mais diversas formações. Enquanto os atendimentos ocorriam, a comunidade com acompanhamento do ITC e apoio técnico da Agrossivultura São Cosme e Damião, definia os rumos do projeto, com a criação de uma área de agrofloresta e uma casa de farinha comunitária, projeto de importância fundamental pois a casa de farinha mais próxima até então estava a 15 quilômetros de distância do assentamento, percurso percorrido a pé, com a produção transportada em lombo de burro.

A casa de farinha também é academia de ginástica! O processo de ralar a mandioca é realizado com uma bicicleta adaptada. Foto: Maria Eduarda Andrade Guimarães

Na criação da agrofloresta, o ITC e a Agrossilvicultura Cosme e Damião trouxeram mudas de árvores nativas, naquele momento, raras na região, trocando saberes sobre as características de cada árvore plantada: jacarandá-da-bahia, madeira nobre, utilizada na fabricação de móveis, na produção de instrumentos musicais, e muito importante para a agrofloresta; o pau-brasil, madeira utilizada na fabricação do arco do violino e de acordo com a turma do assentamento, muito importante na medicina; o guapuruvú, muito útil para a produção de canoas, portanto, fortemente relacionado com as origens da cidade de Ubaitaba, a Terra das Canoas. Foram trazidas também mudas de plantas medicinais, como noz-de-cola (conhecida como Obi nos rituais do Candomblé); noz-moscada, originária da Indonésia e da Índia, a moringa, originária da Ásia, indispensável na preparação do suco verde (vivo) e sêmenes de leguminosas. As famílias assentadas participaram com mudas e sementes de plantas das suas roças, com suas sabedorias e tudo deu certo.

A pandemia até que ajudou na condução do projeto, o distanciamento social e o confinamento desestruturaram a programação inicial e, assim, coube às próprias famílias assentadas a condução da área piloto, com a replicação do canteiro inicial, sempre utilizando sabedorias que estavam guardadas no fundo da memória. Distante do pessoal da Agrossilvicultura Cosme e Damião, a turma deu azas a imaginação e veio planta de todo lado. Enquanto a pandemia avançava, a agrofloresta colocava comida na mesa das famílias, revelando a importância de uma agricultura que prioriza a produção para o autoconsumo. A pandemia avançou e a agrofloresta continuou produzindo comida. No final de 2020, a mandioca que cuidou das sementes e das árvores, amadureceu. Não havia outro caminho, com o apoio do ITC, as famílias assentadas, com muita criatividade, concluíram as obras da casa de farinha e a mandioca virou farinha no prato em um momento muito difícil, no ápice da pandemia.

Sr. Zé Grande é um dos cuidadores do sistema agroflorestal. Zé possui uma deficiência na perna e está recebendo atendimento da equipe do ITC. Foto: Maria Eduarda Andrade Guimarães

Em pouco tempo, a casa de farinha se transformou em uma grande cozinha comunitária, uma cozinha só para a mandioca. Nada surpreendente, um olhar atendo para as comunidades quilombolas do entorno revela a existência dessa cozinha, dedicada exclusivamente à mandioca, em toda e qualquer roça. Uma cozinha muito simples, na qual se prepara os principais alimentos que vão à mesa: a surpreendente farinha de mandioca, que acompanha praticamente tudo que é levado à mesa e que inclusive, pode ser consumida sem acompanhamentos como na farofa d’água, prato rápido que pode ser servido a qualquer hora do dia; os beijus, que podem ser de massa de mandioca, ou de goma, uma espécie de ‘pão da terra’, necessariamente, produzido na etapa final das farinhadas e que substitui com vantagem o pão comprado no comércio, e tem também a puba, conhecida como polvilho azedo, muito utilizado na produção de bolos e pamonhas.

Não há dúvidas, o projeto está mudando a perspectiva das famílias e pouco a pouco, a agrofloresta se consolida como alternativa às monoculturas de cacau e outras commodities trazidas pelos órgãos de assistência técnica que padecem da “síndrome do pensamento único”. A pequena agrofloresta está produzindo comida em abundância e sobretudo, raízes de mandioca. A rica diversidade de cultivos já aponta para geração de renda no futuro próximo, mas isso não é muito importante no momento. A possiblidade de comercialização de alguma produção excedente (cacau, cupuaçu, pupunha, açaí, etc.) e inclusive, da utilização da madeira de lei que cresce rápido na agrofloresta para a construção de canoas  (uma especialidade de Zé Pequeno); a fabricação de telhados, portas e janelas e também na fabricação de  móveis para as casas do assentamento, são temáticas importantes nas reuniões, mas nunca as mais importantes. Há inclusive quem defenda a formação de um luthier – homem ou mulher – que crie violões, arcos de violino e até mesmo guitarras com essa madeira tão preciosa, para deleite do assentamento.

 

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