13.04.2020

Fundos socioambientais locais – Exportando tecnologia social para a preservação da vida

Na foto acima: Encontro do conselho, parceiros e equipe do Fundo Casa com os líderes dos novos fundos socioambientais da América do Sul

– Por Maria Amália Souza e Attilio Zolin

O Fundo Casa Socioambiental foi criado para ser um fundo sul-americano, apoiando projetos de forma integrada nos grandes biomas regionais, independentemente das fronteiras geopolíticas. Afinal, as florestas e os rios não respeitam as linhas imaginárias que dividem as nações. A proteção dos biomas está nas mãos de pessoas de diferentes países, diferentes idiomas e culturas, mas que, ainda assim, compartilham grandes territórios comuns, com o mesmo objetivo: preservar a vida dos importantes ecossistemas planetários. Durante seus anos de existência, o Fundo Casa desenvolveu uma bem-sucedida estratégia de trabalho que resultou em mais de 1.800 projetos apoiados em 10 países do continente. Esse resultado só foi possível graças a um modelo de gestão inteligente e a uma rede de parceiros de confiança que cresce e se expande continuamente. Estes fatores somados formam a tecnologia social desenvolvida pelo Fundo Casa. 

O Fundo CASA é o único fundo da América do Sul criado por ambientalistas locais para apoiar as populações mais vulneráveis de toda a região.  Com esse nosso aprendizado e experiência pensamos: não seria ainda mais eficiente se nossos parceiros de cada país investissem em estruturar seus próprios fundos socioambientais locais?  Eles estão ainda mais próximos das dinâmicas e necessidades das populações vulneráveis de seus próprios países.  Imagine quanto mais poderiam fazer pelos cuidadores desses importantes territórios – os mesmos que continuam sendo os mais excluídos e invisíveis da nossa sociedade?  Com sua proximidade, teriam maior rapidez para fazer chegar recursos nas mãos desses grupos.  Quanto mais próximo um fundo está das necessidades de seu campo, mais eficaz será na sua resposta.

Foi com isso em mente que o Fundo Casa decidiu oferecer sua tecnologia à seus parceiros dos países vizinhos com quem sempre trabalhou. Recebida com grande interesse, a ideia foi então apresentada a financiadores estratégicos, como a Fundação Interamericana – IAF, que prontamente se disponibilizaram a apoiar a replicação do modelo. Hoje, fundos locais baseados na tecnologia do Fundo Casa estão iniciando seus trabalhos na Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Argentina. A criação desses fundos não é um processo rápido; cada realidade impõe seu ritmo de acordo com as características locais. Parceiros de longa data do Fundo Casa, e reconhecidos líderes do campo socioambiental local, estão à frente dessas iniciativas em seus países.

Da esquerda para a direita: Maria Amália Souza (Fundo Casa, Brasil), Sigrid Vasconez (Fondo Ñeque, Equador), Monti Aguirre (Fondo Emerger, Colômbia) e Oscar Rivas (Fondo Paraguay Sustentable).

Uma das inspirações para a multiplicação dos fundos socioambientais locais vem dos fundos de mulheres.  Nos últimos 30+ anos, elas criaram seus próprios fundos ativistas feministas pelo mundo afora, e hoje somam mais de 40 fundos locais exclusivamente focados em mobilizar recursos para promover a igualdade de gênero. Esses fundos estão organizados numa grande rede e trabalham juntas nas importantes agendas do seu campo, com enorme eficiência.  Fundos socioambientais surgiram mais recentemente, e dada a sua natureza temática e territorial muito abrangente, em que apoios são oferecidos em contextos e para públicos muito variados —das florestas e rios aos campos e cidades, e para mulheres, indígenas, quilombolas, periferias, ribeirinhos, agricultores familiares,  pescadores artesanais, entre muitos outros— essa visão de mundo tão particular tem requerido bastante dedicação para ser melhor compreendida pelo campo da filantropia internacional.  O que finalmente tem ajudado a explicar essa abordagem tem sido a maior visibilidade das grandes agendas ambientais do planeta, como as mudanças climáticas.  A necessidade de preservar os ambientes naturais planetários responsáveis pela regulação climática global tem conseguido trazer o olhar do mundo para as populações que habitam essas importantes regiões.  Fica cada vez mais clara a necessidade de financiar seus projetos de vida para que continuem a ser os guardiões desses lugares.  Esse novo olhar para fundos locais, que são capazes de oferecer os mecanismos de apoio que cheguem a essas populações, finalmente coloca fundos socioambientais na agenda global.  

As pessoas podem se perguntar, por que criar mais fundos nesse momento tão complexo do planeta? Não irá haver uma competição pelos mesmos escassos recursos? A gente não acha que está competindo, muito pelo contrário, está criando novos espaços de influência, tanto nacional como internacional, que podem criar novos recursos que hoje nenhum de nós gera ou acessa. Nos fortalecemos porque compartilhamos uma importante visão de mundo, e nos unimos para uma causa muito maior do que todos nós. Além disso, o Fundo Casa, mesmo intimamente participante das redes socioambientais sulamericanas, não tem como captar todo o recurso necessário, ou mesmo disponível, para todos os países. Até porque existem recursos específicos para cada país, que são direcionados a organizações locais, e não podem ser acessados por nós. 

Também, recursos distribuídos diretamente em moeda local são muito mais efetivos do que qualquer repasse internacional, mesmo que venha do país vizinho. Muitas vezes, os grupos são tão pequenos que não possuem sequer conta em banco. A chegada de recursos em moedas estrangeiras seria inviável.  Estas comunidades precisam de recursos para proteger seus territórios e modos de vida. Mas não conseguem acessá-los, pois não possuem esta capacidade construída — na maioria das vezes, elas não fazem idéia de que estes recursos existem. Apoiar estes grupos fortalece o tecido democrático e possibilita que eles tenham voz perante a sociedade. Uma vez visibilizados por esses primeiros apoios, aumentam suas redes de relações e aí sim, podem acessar outras fontes.  Com redes locais atuantes, o alcance destas organizações pode ser muito maior.

E importante registrar, existe um nascente campo da filantropia em países emergentes que precisa ser fortalecido. Somente um fundo genuinamente local poderá estimular o crescimento da filantropia dentro de seu próprio país.

Com a construção dos fundos sulamericanos em andamento nos últimos 4 anos, nos deparamos com uma nova oportunidade animadora. Em Moçambique, na África Oriental, o Fundo Tindzila está sendo criado para apoiar comunidades locais a gerar renda enquanto protege e recupera recursos naturais em todo seu território.  Vieram então buscar inspiração nas tecnologias sociais desenvolvidas pelo Fundo Casa. A equipe moçambicana, liderada pela advogada ambiental Dra. Alda Salomão, veio até São Paulo em fevereiro para fazer um intercâmbio e conhecer de perto a estrutura de funcionamento do Fundo Casa. Neste intercâmbio, o Fundo Casa disponibilizou todo o seu modelo de administrativo, contratos, filosofia de gestão horizontalizada, forma de organização dos conselhos e o funcionamento de suas redes de parceiros. E seguirá apoiando-os a partir de agora em todas as necessidades de desenvolvimento da sua estrutura local.

Da esquerda para a direita: Mauricio Simbine (Fundo Tindzila, Moçambique), Mario Siede (Fundo Socioambiental Argentina) e Alda Salomão (Fundo Tindzila, Moçambique).

Os 7 novos fundos socioambientais agora se unem ao Fundo Casa Socioambiental no Brasil (atuando também nos países sulamericanos onde ainda não existem fundos locais), Fondo Acción Solidaria – FASOL no México, Fundación Tierra Viva para a América Central, e Samdhana Institute para o sudeste asiático, além de algumas ONGs/fundos da nossa rede expandida que atuam de forma similar na Ásia, África e Europa Oriental.  

Durante o processo de consolidação desses novos fundos, alguns momentos planetários reforçam ainda mais o valor dessa iniciativa. Três pontos ajudam a entender:  

– Somos todos de países onde os espaços para a sociedade civil tem se fechado abrupta e violentamente, principalmente sobre ativistas ambientais e protetores dos territórios que encerram as riquezas naturais mais cobiçadas pela visão desenvolvimentista predatória em que vivemos.  Estruturas de distribuição interna de recursos tem sido fundamentais para apoiar soluções ágeis e proteger defensores locais. 

– A atenção para as mudanças climáticas, e as soluções necessárias tem que ser executadas exatamente dentro desses biomas reguladores que ainda estão relativamente intactos— ou seja, nas nossas regiões.   

– E agora, com a paralização do mundo em função da Pandemia do COVID-19, ficou ainda mais crucial vitalizar e viabilizar respostas completamente locais e comunitárias.  E mais do que nunca, estruturar formas de distribuição local de recursos para esses grupos de base comunitária se tornou absolutamente urgente.  

Fundos locais não são somente a forma mais eficaz e acessível para nossa sociedade civil organizada, mas também a que tem o melhor custo-benefício.  Nesse momento atual podem ser mesmo a única opção real.   O Fundo Casa ficará contente se puder colaborar com outros ativistas socioambientais em outros cantos desse planeta para organizar seus próprios mecanismos de financiamento local.  Se a filantropia mundial está repensando suas opções diante da crise econômica que se torna evidente, talvez valha uma nova atenção aos fundos socioambientais locais, formados por pessoas que conhecem profundamente seus territórios, as soluções mais apropriadas para seus países, e que possuem a forma mais eficaz de chegar aos que mais precisarão de apoio nesse momento.

NEWSLETTER

INSCREVA-SE E FAÇA PARTE DE NOSSA REDE
Ao enviar esse formulário você aceita nossa Política de Privacidade