02.04.2026

Confiança nos territórios que vai além do discurso

Com trajetórias consolidadas, Selma Dealdina Mbaye e Laura Yawanawá assumem a presidência e a vice-presidência do Conselho Deliberativo  do Fundo Casa Socioambiental, conduzindo decisões a partir de quem constrói soluções

O Fundo Casa Socioambiental foi estruturado a partir da confiança nas soluções que nascem nos territórios. É assim que a gente construiu nossa trajetória e é assim que seguimos organizando também os nossos espaços de decisão.

A eleição de Selma Dealdina Mbaye, liderança quilombola, como presidenta do Conselho Diretor, e de Laura Yawanawá, liderança indígena, como vice-presidenta, realizada no dia 26 de março, coloca à frente da principal instância de decisão do Fundo Casa duas mulheres que conhecem de perto essa trajetória e fazem parte da nossa história.

Com caminhos construídos nos territórios e atuação direta nas agendas socioambientais, Selma e Laura já integravam o Conselho e agora assumem sua condução, levando para o centro das decisões a experiência de quem vive, articula e sustenta, no cotidiano, as soluções que orientam o nosso trabalho.

Mulher quilombola do território do Sapê do Norte, no Espírito Santo, Selma Dealdina Mbaye construiu sua trajetória na luta por direitos, na articulação política e no fortalecimento das comunidades quilombolas em nível nacional. Assistente social de formação, atua como secretária executiva da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e integra o Coletivo Nacional de Mulheres Quilombolas. Ao assumir a presidência, ela destaca o sentido coletivo desse lugar:

“Assumir a presidência e a vice-presidência desse Conselho é carregar a história de dois pilares fundamentais na construção deste país: os povos originários e os povos quilombolas. Esse lugar não é individual, ele representa muitas trajetórias de resistência”, afirma. 

Para ela, ocupar esse espaço também é sobre ampliar caminhos já construídos, “a gente precisa ir além do lugar da execução. É fundamental estar também nos espaços de poder e de decisão. Esperamos que esse movimento inspire outras organizações a fazerem o mesmo, porque é assim que a gente transforma realidades.”

Ao seu lado, Laura Yawanawá, liderança indígena com raízes Zapoteca-Mixteca, no México, construiu sua trajetória na atuação pelos direitos dos povos indígenas na América Latina. Há mais de 27 anos, ao se unir ao povo Yawanawá, no Acre, passou a atuar no fortalecimento da autonomia das mulheres e da organização comunitária, contribuindo para mudanças importantes nas formas de organização interna. Com formação em relações internacionais, atua como diretora executiva da Associação Sociocultural Yawanawá e desenvolve iniciativas ligadas aos direitos indígenas e às mudanças climáticas. Ao assumir a vice-presidência, leva para o Conselho uma perspectiva profundamente conectada ao coletivo e aos modos de vida:

“Esse conselho liderado por mulheres indígenas e quilombolas representa um passo muito significativo na valorização de perspectivas que historicamente foram silenciadas. A presença dessas mulheres na liderança traz visões conectadas com o território, com a ancestralidade e com formas de organização que priorizam o cuidado, o coletivo e a sustentabilidade”, destaca Laura. 

Laura também destaca o impacto dessa presença: “isso fortalece as comunidades e amplia o debate com mais diversidade e justiça. É fundamental reconhecer a autonomia dessas lideranças e a capacidade de construir decisões a partir das próprias realidades.”

A presença de Selma e Laura na liderança do Conselho não é um ponto fora da curva na nossa história. É o aprofundamento de um caminho iniciado desde a fundação, há mais de 20 anos, por Maria Amalia Souza, que sempre defendeu que os recursos precisam chegar e ser orientados por quem vive e protege os territórios.

“Esse é um marco muito importante porque é coerente com tudo o que o Fundo Casa sempre construiu. A gente nasceu do campo do ativismo socioambiental, trabalhando diretamente com quem está na linha de frente. Ao longo dos anos, fomos fortalecendo essa relação e trazendo essas vozes para dentro da instituição. Hoje, dar esse passo na governança é uma consequência desse processo”, afirma Maria Amalia.

Para Cristina Orpheo, diretora executiva, esse momento traduz a maturidade de um modelo construído com consistência. “O Fundo Casa foi estruturado a partir da confiança nas soluções que nascem nos territórios. Ter lideranças como Selma e Laura na presidência do Conselho fortalece ainda mais essa direção, porque traz para o centro das decisões pessoas que têm experiência concreta, vivência e compromisso com essas agendas.”

Cristina também destaca o papel das mulheres na trajetória da organização:

“O Fundo Casa é uma organização construída majoritariamente por mulheres, desde a sua origem. Isso faz parte da nossa forma de atuar. São mulheres que ajudaram a consolidar uma instituição sólida, conectada com os territórios e com uma visão de justiça socioambiental”, destaca. 

A nova presidência do Conselho é parte desse caminho, que não começa agora. É a continuidade de uma construção coletiva, feita a muitas mãos, as quais seguem trabalhando, sustentando e fortalecendo soluções concretas todos os dias.

A nova composição, reúne ainda as conselheiras e conselheiros Gisele Paulino Reis de Oliveira, Mércia Consolação Silva, Elionice Conceição Sacramento, Brent Millikan, Esaltina Gonçalves Costa, Edmilson Carlos Pereira de Abreu Pinheiro e Iremar Antonio Ferreira.

Nosso agradecimento especial a Renato Cunha, que esteve à frente da presidência do Conselho, e a Severiá Idioriê Xavante, pela dedicação, pelo compromisso e pela contribuição fundamental na construção e no fortalecimento desse caminho ao longo dos últimos anos.

Com atuação em todo o país, O Fundo Casa segue mobilizando e destinando recursos que fortalecem soluções locais protagonizadas por populações que têm conhecimento, experiência e compromisso com a proteção dos biomas e dos modos de vida.

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